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sábado, 15 de agosto de 2026

ENTREVISTA COM CARLOS VINÍCIUS TELES DA COSTA

 



Julgamento com base na LSN


Entrevista concedida e liberada pelo militante histórico e professor de História Vinicius Teles.


Vinícius, qual é o seu nome? Carlos Vinícius Teles da Costa. 


Julgamento de Vinicius Teles pela LSN


Nasceu onde? Nasci em Campina Grande – Paraíba, em 1959. 

Sua família, filho de quem? Tinha muitos irmãos? 

Meu pai paraibano, disse que queria ter um filho. Sou o mais novo, chamado caçula, né. Ele me levou só para nascer lá e retornei para Belém, vim para cá com nove meses, e daqui não saímos mais. Mãe cearense e essa foi a nossa vida aqui. 


Vinicius Teles, blogueiro  e amigos


Muitos irmãos? 

Mais dois homens e uma irmã mais velha. 

Então cresceu o tempo inteiro em Belém? 

Todinho em Belém. 


Vinicius Teles, blogueiro e esposa.


Qual era o bairro que tu moravas? Eu morei no Umarizal, de 1960 a 1971, e depois no Reduto. Foi quando se deu o processo da LSN de 1971 a 1983. 

De 71 a 83 tu morou no Reduto? 

No Reduto. Tá. 

Qual foi a tua formação? Estudastes em escola pública, antes de entrar na universidade? 

Estudei em escola púbica e estudei em escola privada. Estudei no Colégio Salesiano do Carmo, fiz o convênio no Marista, no Nazaré, e entrei na universidade em Odontologia e em 1979. 

Teu pai tinha condição então pra te manter no Nazaré? CoEmo é que era a sobrevivência?

Era, foi na época em 1976, meu pai tinha duas embarcações e ele vendeu para mudar de vida. Mas depois ele afundou, tentou ser madeireiro e afundou, não tinha experiência. A experiência dele todinha era de marítimo mesmo. 

Ele sustentava a família dessas duas embarcações? 

Era. Fazendo só frete de carga Belém/Manaus e Belém/Santarém.

Como é que tu faz opção de fazer o curso de História? Por que veio esta opção? Primeiro, tu fizestes odontologia?  

Quando eu entrei em odontologia, tinha muito a ver que meu pai tinha um irmão que era odontólogo lá em João Pessoa. Então aquela velha esperança, minha família queria ter, nós éramos três, um padre, um engenheiro e um doutor, o mais velho não foi padre, o segundo não foi engenheiro e caiu em mim ser doutor. E eu para tentar satisfazer fiz odontologia por que era o que meu tio, irmão do meu pai, era. E quando eu entrei aqui, mas só que eu já tinha uma leitura, uma leitura marxista. 

Da onde veio esta leitura? Tivestes contato com o movimento secundarista?

Na década de 70 ainda no Colégio do Carmo eu era, nós estudávamos eu e o Elias Pinto, que era irmão do Lúcio Flávio Pinto. Então eu frequentei muito a casa do Lúcio Flávio Pinto. Então todo este contato sobre o que era a ditadura nós mantínhamos isso em 1975. Lembro que em 76 eu fui trabalhar no Mobral, já com toda uma leitura do Paulo Freire e fui monitor do Mobral, monitor mais novo com dezesseis anos. E entrei no Mobral pra aplicar o método Paulo Freire clandestinamente, né, e o Mobral era 6 meses, ninguém alfabetizava, e eu em 2 meses alfabetizei. Ai foi quando o regime militar passou a inspecionar. Foram, prenderam meu pai, já que eu era menor de idade e meu pai era um cara que concordava com tudo e com o militarismo. Então dali começou a perseguição, dali começou. Tanto que quando eu entrei com o processo da anistia eles tem tudo isso dai. O SNI me acompanhava dessa época, desde 1976 quando eu fui monitor do Mobral. E fui expulso. 

E depois ai tu fizestes odontologia? 

Ai fiz odontologia como forma de mostrar pro meu pai que eu não era tão subversivo assim, agradá-lo (risadas). E depois que eu entrei em odontologia, aqui, eu encontrei o clima da reconstrução da UNE. 

Qual foi o ano que tu entraste? 

Em 79. Junto comigo em 79. 

Mais tu fizeste odontologia?

Odontologia. 

Qual é o clima que tu fala de reconstrução da UNE? 

Era o processo das eleições, era o Luzio, as chapas que haviam na época. E eu me identificava muito com o Luzio, com o Sidney Dourado, mantinha sempre uma discussão boa com ele, morávamos próximos. E isso me levou inclusive a abandonar Odontologia e fui embora daqui, porque pro meu pai, pra minha família, isso era um absurdo. Onde já se viu deixar de ser doutor, dentista, para ser historiador, ser professor? E passei 1980, fui morar com o meu irmão, na Paraíba, depois eu fui para São Paulo, em São José dos Campos, foi no momento em 1980 que houve a greve do ABC, eu fui até lá em Santo André, de São José me desloquei e dali eu tive a primeira experiência com o movimento operário, movimento sindical. E ai em 1981 eu retornei e fiz a inscrição para o vestibular ainda em São Paulo, fiz através de uma colega minha que morava na rua de casa e vim fazer a prova e passei. Inclusive no dia do resultado ficou toda a minha família de mãos dadas rezando pra mim não passar e quando saiu o meu nome, né, aprovado em história todos rogaram praga, “Vai te arrepender. Deixar de ser doutor para ser professor”. Foi impressionante, ninguém me deu parabéns. Então foi essa a minha entrada no curso de História em 81. 

Tu entras em 81. E qual é a tua relação com o movimento? 

Eu lembro que em 81 já é a eleição do DCE. Eleições diretas para o DCE, reconstrução do CAHIS, né. A Fundação do CAHIS foi em 80, um ano só depois. Foi em 80, mas o CAHIS eu me lembro que era tu, era a Carmem e tal. Vocês reconstruíram sem o processo eleitoral na época. A primeira eleição mesmo pro CAHIS foi em 1981. Não, desculpe foi em 80, teve eleição, teve chapa única. Em 81 já teve duas chapas. A Berna (Bernadete Menezes) foi de uma e foi, eu acho que foi… fui eu e a Berna. Foi. Era tu e a Berna. E também para a eleição do DCE era tu e a Berna. Em história era. 

Como é que tu tem o contato com a Convergência. Na verdade, neste período Alicerce da Juventude Socialista? Não, não existia o Alicerce. Ainda não? Ainda não, Alicerce só vai existir em 1982. 

Em 81 é o que? 

81 era Convergência. A gente funda a Convergência aqui. 

Como e que eles chegam a ti? 

Através da Berna, no curso de História eu já tinha contato com o Sidney Dourado. Que era o jornal Convergência. E aí vem um cara da direção nacional e nós iniciamos aqui.

Quem era em História? Eu e a Berna, o Zé Flavio da FCAP. O nosso núcleo da Convergência, nós éramos a maioria secundaristas

A Concha (Conceição Menezes) também? A

 Concha também. Ela entra em 82, né, na UFPA. Então, aqui era eu, Berna, na UFPA, e os secundarista, que na época era a maioria. 

O Fernando (Carneiro) era secundarista? 

Sim, Francisco (Cavalcante) o Chiquinho, Claudio Darwich, Figueiredo e Pedro Cabral, grande teórico, era um dos maiores teóricos da Convergência, ele e o Francisco Cavalcante, sabias disso? Não, não sabia. Era o eminência parda da Convergência. Hoje, ele é médico da marinha mercante.

Depois você me dá o contato dele. Como é que começa o namoro com a Beth (Faria)? 

Em 1982. Eu me lembro que comecei o namoro. 

Onde vocês se conheceram? 

Aqui na universidade, na cantina do básico. E aí como eu já vinha sendo acompanhado pelos órgãos de seguranças, quer dizer, eu não tinha essa noção, tanto que quando nós fomos indiciados na invasão da sede da Convergência o delegado que veio de São Paulo, que era um cara especializado só sobre a Convergência a nível nacional, me diz “olha você já está indiciado, nós vamos pegar os outros”, ele fazia questão de frisar isso. Então demonstra como já havia todo um acompanhamento. E eu acho que tudo isso era devido à militância, eu era um dos caros mais jogado, ousado, mais público da nossa organização e também porque eu tinha um maior enraizamento social. Porque a Berna não cresceu aqui, os outros também não. Então eu tinha um nível de amizade de pessoas que eu havia convivido durante um tempo que me dava um certo enraizamento, por isso que eu era um cara que mais vendia jornal da Convergência, né. Me lembro que uma vez, veio um cara, Valério Arccari, da direção nacional, nós fomos fazer uma panfletagem pra venda de jornal no centro ali no Banco da Amazônia, na Presidente Vargas, e ele era um cara boa pinta, tinha um bom papo, aquele português, ele era de Portugal mesmo, e ele dizia que era o maior vendedor de jornal no Brasil. Aí fizemos uma disputa, Berna, Babá (João Araújo) na época e eu disse, “não cara, tu podes ser o maior vendedor lá em São Paulo, aqui não, aqui em Belém, quem tem enraizamento social, sou eu”, bora ver, fizemos uma panfletagem, quando terminou, “quanto tu vendeu? quanto tu vendeu?” e por penúltimo o Valério Arcarri, “-quanto tu vendeu? -52 jornais” “-e tu? eu vendi 81, não adianta, eu sou o cara que tem raiz aqui nessa terra”. Então a Convergência começa nesse período e em 82 tem essa questão do namoro com a Beth. E aí, a família dela em dado momento descobre que – eles pensavam que a Convergência fosse como um grupo de jovem da igreja, eles não tinham noção, depois que eles vão ser orientados. Apesar do pai dela ter servido ao SNI, principalmente em 64, porque ele trabalhava na CDP junto com o Raul Porto, que foi um dos caras que dirigiu o SNI aqui no Pará. 

Como era o nome do pai dela? 

Era o seu Guilherme Magalhães Faria e ela tinha um tio também que era tenente do exército e esses caras na época quando descobriram nosso namoro, simplesmente, trancaram ela em casa, ela ficou incomunicável no quarto. Coisa assim de história da carochinha. Aí, passado um mês desse cárcere na residência, ela foge, numa daquelas cenas da mãe levar um prato de comida ela empurra a mãe e, como não tinha ninguém, ela consegue escapar. Aí, chega em casa “olha eu fugi de casa”, agora ferrou, eu levei ela para a casa da Berna e do Babá. Aí tentamos entrar em contato com a família dela e dizia “olha, não dá pra ficar nessa situação. Vamos conversar”, eles disseram “Não, a gente vai te matar. Nós vamos ai pegar a Beth e tu vais ver o que nos vamos fazer contigo”. 

Quem fala isso pra ti no telefone? 

O pai dela, e aí, nós decidimos na época, a organização, que eu tinha que cair para a clandestinidade, era a única forma, porque tinha um grande aparato. Não foi só a polícia militar, a 5 polícia civil. Foi a polícia da aeronáutica, a polícia do exército, da marinha. Várias pessoas foram na residência. 

Por que tu acha que eles deram tanta importância pra isso? 

Eu acho que porque a organização em 1982, no final de 82 teve as eleições. E aí o PMDB, a nível nacional, foi vitorioso, a ditadura foi derrotada nas urnas. Então foi exatamente nesse período que tu tens a tentativa da aula da extrema direita do exército em reprimir as organizações de esquerda. Então tu tens a invasão da sede do PCB, no Rio de Janeiro, do PcdoB, em São Paulo, em Recife, e a Convergência, em Belém. Por que a Convergência em Belém se a matriz da Convergência era em São Paulo? Só que São Paulo, a Convergência, tu tens uma cidade, uma megalópole. 

O que era a Convergência ao nível da superestrutura da sociedade em São Paulo? 

Não era nada. Em Belém nós éramos um grupo que tinhamos um peso muito grande na superestrutura. A universidade dava muita visibilidade e a nossa ousadia transparecia. Os atos que a gente fazia de ir pras paradas de ônibus fazer panfletagem com cartazes, né. Nós éramos um grupo de 12/15 jovens que faziam muito barulho. E isso incomodou, então a direção nacional, o SNI, a polícia, a polícia federal, disseram “olha, nós temos que atacar onde é o elo mais forte dessa organização. E onde está? Está em Belém”. E por isso eles veem e indiciam. 

Essa é uma avaliação tua ou a Convergência fazia essa avaliação? 

Não. Eu fazia essa avaliação e depois ouve uma concordância inclusive por parte do José Maria, na época. Tanto que em 77 eles invadiram a sede da Convergência em São Paulo. Prenderam, indiciaram e inclusive foram presos políticos José Maria de Almeida e outros militantes. Mas depois que essa história de 82, final de 82/83, tu tens aqui em Belém a Convergência. Tu tens o PCB no Rio de Janeiro, que era forte. Tu tens o PCdoB em São Paulo que era forte. Entendeu? Então foi uma escolha que os órgãos da ditadura, o SNI, faziam essa avaliação e como eles iriam atacar. 

Essa parte da Liga Dura? Era, da extrema direita dentro das forças armadas. 

E a presença da família da Beth, ela tinha muita influência? 

Eu acho que eles foram utilizados. Eles foram muito bem utilizados pelos órgãos de segurança na época. Eles podiam ter alguma influência, mas não era toda essa influência. 

Tinha, parece, um irmão dela também na polícia federal, que tava na ação? 

Era, que tava na ação. Era um cunhado dela. Casado com a irmã dela e que era da polícia federal, mas o forte era o velho (o pai) e esse tio do exército, que era membro do SNI. Ele era membro do SNI. 

Ele que tu acha que articulou todas essas forças ou chamou atenção? 

Não, tanto que a ação deles era me matar. Me exterminar. Ai quando vem pra cá a direção nacional da polícia federal, que vai e faz uma reunião com ele e diz “Olha, não. Não é assim. Nós já estamos de olho nessa organização. Nós vamos prendê-lo. Nós vamos julgá-lo”. E aí foi que amenizou, porque a ação deles aqui era de matar. Era esse. Sim, aí voltando. Tu vais pra casa da Berna. Aí de lá nós decidimos que nós deveríamos ficar clandestino. 

Foi uma decisão da Convergência? 

Da Convergência, da direção. E aí era eu e ela. E nunca ficar em casa de pessoas que tivesse alguma ligação com a organização ou que fosse simpatizante da organização. Então foram 25 dias de clandestinidade, que a gente ficava numa casa e aí a pessoa que era o elo entre a organização e a gente era o Luzio Orácio Lima. Grande companheiro. E era determinado que a gente só podia telefonar pelo telefone público durante a madrugada. A minha casa nessa época já tava com dois PM’s e todas as casas dos militantes e simpatizantes, todo mundo foi invadida, por diversos órgãos. Era uma loucura. Muita gente na época inclusive. 

Casa de quem, por exemplo, foi invadida? 

Todos, todos. Da Celinha, casa da Ana Célia. Casa de quase todos que eram militantes, pessoas que não eram militantes, por exemplo, havia o Natal e a Clóris que nós tivemos na casa deles, passamos uma noite lá na clandestinidade. Aí de repente vinha aquela coisa que me dizia “Olha, acho que vão invadir”. Entrava em contato com o Luzio, era ele que na madrugada arrumava um táxi, nos colocava num carro e nos levava pra uma casa. Sempre uma pessoa que não tinha nada a ver com a organização e que não fosse simpatizante. E nesse intervalo tu tens aí todos os órgãos e a mídia falando. Solidariedade é importante, pra mostrar também uma certa solidariedade. 

Quem te deu abrigo? O Valmir, a família do Valmir em plena Batista Campos, eles invadindo as casas na periferia e eu no centro da burguesia de Belém. Fiquei em três apartamentos no centro da Batista Campos. Passei dois dias na casa dos pais do Valmir Bispo Santos. 

Mas eles não sabiam? Só o Valmir? 

Só o Valmir sabia. Valmir e Valcir, no caso. Valmir e Valcir, era. Tanto que a gente ficava lá e não podia botar a cara na janela, nem nada. Mas depois eles iam cercando. Faziam um cerco. 

Quem mais? Quais os outros? 

Tinha um outro que eu não me lembro, que era professor de mecânica que não tinha nada a ver com o movimento docente, nem nada. E ele morava num lindo apartamento na Batista Campos, bem na praça Batista Campos. Poxa foi ótimo, uma das melhores hospedagens que nós tivemos, dormimos bem. Depois nós fomos pra outras casas. Algumas inclusive eu não posso citar porque as pessoas não gostam, ajudaram na época, mas depois tinham medo. Até hoje ainda falo “Isso ainda existe”. Mas o que eu posso te dizer, por exemplo durante esses 25 dias teve um dia que vim aqui na universidade e aqui era cercado. Os três portões, aqui Augusto Corrêa, da Perimetral, os dois portões, e aí me lembro que tu ia lá pelo Porto da Palha e vinha num barco, aí entrei aqui pela beira do rio. Saí durante o dia e vim pra cá e vim pro pavilhão B. Os órgãos e a polícia federal tava aqui e começou a querer me prender. Vieram várias viaturas, ficaram no portão. Eu só sei que nesse dia eu saí daqui a noite na mala do carro da professora Ivaneide. 

Tu lembra dela? (risadas). 

Ivaneide Nogueira. Porque ela era muito amiga da minha mãe, e eu tinha morado na Aristides Lobo então ela morava em frente. Ela podia ser uma pessoa de direita mas era o Carlos Vinícios, o filho da dona Tereza, amiga dela. Então eu saía no porta mala do carro dela, porque todos os portões nesse dia, me lembro que foi o grupo Glis nessa época o Leonardo, Selé, o gordinho filósofo. 

Tu lembra dele? 

Todos eles, saia de um bloco, entrava em outro, eles iam olhavam, “olha, tem um cara estranho” até chegarmos no centro de filosofia e eu pudesse entrar no porta mala do carro da Ivaneide. Aí na saída os agentes revistavam o carro e quando chegou a vez dela, parece que um dos caras, dos agentes, reconheceu ela, por algum lance de parentesco com o marido dela, e aí não revistou o porta mala. Eu saí e foi um das ações mais ousadas em ficar clandestino, todo mundo vinha preparado pra te prender, mas aqui era um ambiente democrático. Queira ou não, aqui tu tinhas uma resistência muito grande. 

Ai tu voltastes e como é que termina? 

Aí o nosso advogado na época, José Carlos Castro, entra em contato com a família, com os advogados da família, com os órgãos de segurança e marca, só que nesse intervalo eu caso com ela. A direção da organização faz uma reunião e decidem que eu deveria casar, eu inclusive fui consultado, minha opinião, e fui contra. Por que eu fui contra? Primeiro a questão legal é que se eu caso, como eu já estava indiciado, ainda não tinha havido a invasão a sede, se eu caso desmontava a principal peça da acusação que era o aliciamento de uma menor de 21, porque ela tinha 19 anos, na época ainda era menor de idade, para a subversão porque não existe aliciamento de marido pra mulher. 

Por quê que eu era contra o casamento?

Não que eu não quisesse viver com a Beth, era que eu achava que era melhor pra nossa organização, inclusive se nós fossemos presos. Essa não era a avaliação. Me lembro que na época a Berna, Francisco, Fernando Carneiro, assim, eles pulavam, isso era um absurdo. Primeiro que nós éramos na sua maioria pessoas de classe média. Ora, quem é que vai querer ficar preso, vamos supor pra isso dar maior visibilidade pra organização, que isso levasse a um crescimento da organização. Então essa posição era divergente. 

Agora, antes da invasão da Sede tu diz que já estavas indiciado e qual foi o argumento da época? O argumento deles era exatamente esse do aliciamento pra subversão. Aí quando a gente se apresenta na sala do escritório do José Carlos Castro, quando a gente sai da clandestinidade e chama a imprensa, aí a família dela inclusive invade a polícia. Desrespeita. O escritório de advocacia é como se fosse uma embaixada, ele não pode ser invadido por agentes da polícia.  

A polícia invadiu o escritório?

Invadiu o escritório e inclusive o irmão dela veio e me agrediu. Me deu um soco e quebrou meu nariz. E isso com a presença da imprensa, que depois não foi nem divulgado. Isso foi tudo abafado. E aí José Carlos Castro apresenta a certidão de casamento. Então desmoronasse a principal acusação. 

Quem pensou isso também foi o José Carlos Castro (advogado)? Essa estratégia, junto com a organização?

Foi, essa estratégia foi, junto com a organização. 

Ele pensa e propõe pra organização? 

Foi, e queira ou não as pessoas estavam. É… como te dizer? 

Ninguém tinha compreensão do que tava se passando e aí a opressão, a pressão foi tão grande que as pessoas queriam fugir daquilo. 

E qual era a posição da Beth sobre isso?

A Beth era uma pessoa já extremamente militante. Concordava com tudo. E aí nós saímos. 

Depois que ele te apresentou isso terminou a clandestinidade? Vocês foram morar aonde? 

Terminou a clandestinidade. Nós fomos morar na casa da minha mãe no Panorama XXI. Aí com 10 dias – 15 dias depois, durante o carnaval, me lembro que foi dia 9 de fevereiro, num sábado, tinha uma reunião na Sede da Convergência, ficava na 9 de janeiro, ali em frente ao museu, e nós fomos pra lá. Eu e a Beth pra essa reunião. Isso é em 83? Em 83, isso foi em janeiro essa questão da clandestinidade. Janeiro e fevereiro. Então em fevereiro. Aí a polícia federal invade a Sede e invade a casa da minha mãe onde nós morávamos. Inclusive minha mãe tinha se mudado pra lá, nós tínhamos ido morar lá e tinha uns 3 – 4 meses que morávamos. Então foi o comentário, muito, daquele conjunto. Porque as casas do Panorama a frente vai pra uma rua e o fundo vara pra outra e a polícia federal chegou. Quer dizer, antes deles invadirem eu já tava desconfiado que tinha sempre gente na esquina onde a gente morava que ficava tirando foto. Me lembro que nessa época eu procurei, antes dessa invasão, o Paulo Fonteles e a Ecilda lá no aparatamento que eles moravam em Nazaré, em frente ao colégio Nazaré, pra inclusive pegar a experiência dele. Ele era o cara que tinha experiência na hora em que tinha que ter segurança. E ele dizia “olha, isso é intimidação, quando ver que tiraram foto vai pra cima. Em vez de tu se esconder tu tem que ir pra cima da pessoa. Não tem medo porque eles não vão poder te atirar. São eles que vão correr”. E foi isso que comecei a fazer, graças a essa orientação do nosso colega Paulo Fonteles que já é falecido. Inclusive isso daí na época, na organização, quando descobriram que tinha ido com Paulo Fonteles quiseram fazer um… como é?… uma comissão de ética porque onde já se viu trotskista ir com stalinista? Pra ti ver o quando era sectário o setor dentro da Convergência. Francisco Cavalcante, pessoas que pensavam assim mas depois isso foi até abafado porque demonstrava a inexperiência das pessoas em relação ao processo que tava se passando. 

E sim, aí eles invadem. Como foi essa invasão? 

Pois é, nós fomos pra Sede e quando chegamos lá eles já estavam lá dentro, os agentes. A Sede ficava numa vila e toda a vizinhança já sabia lá dentro e todo mundo não falava nada. A vila e a localidade era uma localidade bem classe média mesmo. E eles demonstravam apoio aquilo, porque eles não suportavam. Principalmente com as palavras de ordem que a gente gritava lá dentro “4°Internacional”, “Classe Operário Internacional”, quer dizer, todas aquelas reuniões que nós tínhamos era uma agressão pra aquela vizinhança e tu tem que convir que tu tava numa ditadura e aí quando nós chegamos lá que batemos na porta e abrimos, diz que a Beth ainda fez assim (utiliza a mão como arma) “Pei”. A polícia lá de dentro já puxou ela, e todo mundo com metralhadora e revolver, puxaram ela e “Entra”, aí esse delegado veio e disse “olha, você já está indiciado, nós vamos pegar os outros. É a lei de segurança nacional”. Ai quando vi todo mundo na parede, Baba, Berna, e eles aga remexer, remexer e eu comecei a acompanhar. “Eu não sei o que vocês vão fazer. Se vão forjar. Vocês podem forjar”, os caras ficaram e disseram “Olha, você se acomode que você já vai preso daqui” e eu dizia “Não, eu to apenas acompanhando pra ver se eles não vão forjar alguma coisa contra qualquer um membro daqui de dentro”. E foi todo aquele período, me lembro que a Pauline que era secundarista, na hora em que ela me vê diz “Vinícios esses estão aqui dentro?” ela foi a mais ousada ali dentro em relação a repressão. E isso demonstrou depois que nós fomos pros interrogatórios que eles foram fazendo uma… 

Eles ficaram quanto tempo na casa? Eu acho que ficamos lá e pegaram os depoimentos dos menores, que era uma coisa absurda. Isso não era pra ter sido feito. Então Pauline, Cláudio Daruich, eram de menor e todos eles foram interrogados dentro da Sede com a nossa presença. Então acho que nós passamos ali umas 16horas, entre 12 e 16 horas. Depois eu me lembro que veio os pais do Cláudio, eles chegaram lá e ele ia pra um congresso nacional, era um delegado do congresso nacional da Convergência, claro era uma organização clandestina que nós não podíamos falar. Aí os pais deles chegam lá e a mãe “Cláudio!” – gritando – e ela entra na casa e não se apercebe o que tá acontecendo. 

“Nós estávamos no aeroporto até essa hora e você ainda não foi? Tu não tem que viajar pra esse Congresso?”. Ai ele “mãe, eu to preso. Dê uma olhada.” ai foi quando ela olhou e percebeu aquele monte de cara com metralhadora apontando pra gente. 

Depois eles soltaram vocês? Indiciaram e depois começa o processo? Foi, aí começa o processo. Nós fomos intimados a comparecer a Sede da polícia federal e aí vamos prestar depoimento. Ai eu me lembro que no meu depoimento foram 12 horas na Sede da polícia federal e era assim, o delegado, o escrivão, o José Carlos Castro nosso advogado e dizia “olha, é bom vocês levarem parentes, porque a presença do parente diminui inclusive a pressão ou a tortura, o espancamento”, que eles faziam mesmo isso. Aí eu levei a minha mãe, minha mãe na época tinha uns 60 – 70 anos, já bem idosa, quando chegava lá que os caras começavam a apertar no interrogatório e bater na mesa, minha mãe disse “olha, eu concordo com o que vocês falam mas vocês não batam no meu filho”. Era engraçado a dona Tereza. Importante a presença dela, porque amenizou. Os caras trocavam a todo o momento. Eles interrogavam depois trocavam, duas horas, duas horas. 

E tu ficava ali, já pensastes ai tu fica 12 horas?! É onde tu vai entrar em contradição nas perguntas. E que tipo de pergunta eles faziam? Qual era o conteúdo? 

Eles perguntavam sobre a questão da organização, questão política, e a questão organizativa. Nós tínhamos que negar a questão da organização, sempre vinculada ao jornal, ao movimento estudantil e José Carlos Castro, na orientação dele antes, ele fez uma reunião com a gente, quando chegou nos depoimentos “olha, é pra vocês dizerem que vocês são do movimento de igreja” e todo mundo escutou. Quando ele foi embora todo mundo “ei, nada disso, quem vai assumir a política aqui? Fulano, fulano e fulano. A organização? Nega, todo mundo nega. Alguns assumem a organização”. E quando chegava na hora, quando o cara fazia a pergunta, que a gente respondia, ai o José Carlos Castro na hora fazia assim (colocava a mão no rosto e virava a cara). Tipo assim, “não foi essa a orientação que eu dei”. Então tinha essa questão da gente afirmar a organização. Me lembro que José Maria de Almeida tinha vindo aqui antes de começar nosso interrogatório, nós tivemos uma reunião legal, como seria o nosso procedimento perante os interrogatórios. 

E qual foi, assim, sucintamente? Assim, alguns assumir qual era a política da Convergência, por quê nós éramos um órgão que lutávamos por uma sociedade socialista, por quê lutávamos contra a ditadura. 

Essas questões. E eles tentavam ver se vocês tinham alguma coisa de luta armada, por exemplo? 

Tinha. Toda hora e se tínhamos algum vínculo internacional. Porque aí caracterizava toda essa questão de partido clandestino. Então nessas horas tu tinha que ter bastante tato. Como tu assumir um lado político e ao mesmo tempo não assumir a questão organizativa, as células e tal. Vocês defendiam ideias então? Ideias socialistas de liberdade? Eles tinham um croqui de todo mundo, quem era quem na organização eles tinham. Antes de começar meu interrogatório, esse delegado fez questão de dizer “olha, presta atenção, eu conheço tudo sobre a Convergência no Brasil. Eu sou de São Paulo”. 

Como era o nome desse delegado? Tá no processo? 

Tá no processo, era Sérgio. Durou quanto tempo esses interrogatórios e esse processo? Olha, nos éramos 31 que foram pro interrogatório e depois que termina esse interrogatório pela polícia federal, é indiciado mais 7. Aí ficou 8, porque eu já tava indiciado antes de iniciar todo o processo, já devido a questão do aliciamento. Respondendo ao que? Era o aliciamento, tanto que todos os artigos, se eu fosse condenado eu pegaria 48 anos de cadeia, e depois viria a Berna, o chiquinho que pegaria uns 43 anos de cadeia depois viria a Concha e tal. Entendeu qual era os incisos da lei de segurança pra cada um? Porque sobre a minha pessoa recaia a questão do aliciamento, o que agravava ainda a questão dos outros incisos.

Os outros seriam formação de organização? 

É, formação de organização, vínculo internacional. Esse era o processo. 

Quanto tempo durou ainda mais o processo, já com os indiciados? Foram 2 anos até o julgamento. Ai depois que a polícia federal fecha o inquérito policial e nós somos indiciados na lei de segurança nacional, aí nós passamos para um âmbito militar, que foi no tribunal da 8° Região Militar, ali na José Malcher. Aí toda vez que tinha audiência, tinha que comparecer todo mundo. Então tinham as testemunhas de acusação, as testemunhas de defesa. Então isso era, assim, um processo chato porque envolvia diversas audiências até chegar o julgamento que foi em setembro de 84. 

Quais eram as testemunhas de defesa de vocês? 

Olha, Romero Ximenes foi um. 

Quem mais?! Eu não me lembro, mas tá no processo. Só me lembro do Romero Ximenes que foi uma pessoa importante. 

E de acusação? Era o pai? 

É, era o pai dela os familiares dela e alguns membros do serviço nacional de informações (SNI). 

E a postura da Beth nesses dois anos de processo? 

A gente ficou na casa da mamãe ai depois veio a invasão do Conjunto Maguari. Ai nós fomos. Fui pra lá com ela por que não tinha mais clima em casa pra isso, tava muito difícil. Meus irmãos ainda moravam, depois que meu irmão, os meus irmãos, casam e eles diziam, eles discordavam. Diziam assim “olha, tomara que tu seja preso”. Meus irmãos, me lembro, que na época falavam isso. Eu dizia “não tenha dúvidas, se um dia houver revolução eu vou executar vocês no paredão” (risadas). Isso era o momento que a gente vivia, né, porque meu irmão era do exército, era tenente do exército, né, o mais velho. E lógico que ele discordava de tudo isso aí porque ele concordava com o regime. Então aí eu saí e veio a invasão do Conjunto Maguari e eu fui pro Conjunto Maguari invadir, né, e lá conheci o Ivan, o Chiquinho, o Ronaldo e me lembro que na época a Convergência foi lá o Baba e a Berna, que eu deveria sair de lá da invasão. 

Por que? 

Porque nós respondíamos o processo em liberdade, mas se um fosse preso, todos seriam presos. Então aquilo caracterizava durante o processo que era uma ação de subversão. Ai eu dizia “meu irmão não tenho mais pra onde ir, cara, a organização não vai me bancar. Eu não tenho saída. Eu tenho que ficar aqui. Eu não vou sair daqui”. Eu e a Beth. E foi um o período mais difícil, porque foi o período de maior pressão e ao mesmo tempo eu não tinha tido assim, né, apoio da organização, nada. Fiquei totalmente isolado, devido a apreensão de todo mundo. Todo mundo vivia tenso, né. Então era como se eu tivesse descordado. Inclusive eu me afastei da organização durante esse período. 

Por que? 

Porque eu tinha que sobreviver, né. E ao mesmo tempo eu me tornei o dirigente da invasão, eu era membro da diretoria da UMOJAN. E foi exatamente ali o período de maior sofrimento, né, porque. 

Pra registrar, UMOJAN? UMOJAN, União dos Moradores do Jardim Maguari. Ali em frente a SEDUC, na Augusto Montenegro. Eram 2.500 casas, 2.100 casas foram invadidas. Eu me lembro que em 83, durante a SBPC que foi realizada aqui na UFPA, tava se dando, era o Jader Barbalho, primeiro ano do governo Jader, ai a desapropriação. Ele mandava, tomara que chova, um bucado de caminhão com soldados eles saiam fazendo despejo casa por casa e nós que éramos dirigente, eu, Ivan, Chiquinho e Ronaldo, nós tiramos uma estratégia que era ocupar cada casa e encher de homem, tirar os familiares e todo mundo resistir no cacete, porque quanto mais tempo demorasse pra fazer o despejo de uma casa, mais tempo a gente ganhava pra acumular solidariedade, né. E ai aquilo foi demorando, foi demorando. Quem ficava no banheiro, quem ficava na cozinha tirava um pedaço de pano molhava porque os policiais chegavam e enchiam de bomba de gás lacrimogênio pra desocupar e ninguém saía, né. Era um processo de resistência muito grande, né. E ai eu me lembro que todo mundo foi preso e eu consegui escapar pela mata e varei no Satéite. Ai vim até aqui e tava aqui o Leonel Brizola, no ginásio da UFPA, né, e pedi a solidariedade. E o Brizola foi um cara que fez um discurso dizendo que todo mundo deveria ir pro Maguari. E foram, foram 3 ou 4 ônibus pra lá e foi quando Jader Barbalho retirou a polícia. Foi uma grande conquista. E foi graças a isso, a essa presença da SBPC, que nós conseguimos aquela moradia. 

E tu respondendo processo? 

E eu respondendo processo. Tinha uma coisa impressionante. Na esquina onde eu estava, na casa que eu havia invadido, tinha um cara que se mudou e ficava na esquina de casa e que foi meu vizinho na Aristides Lobo, assim, quando a gente era adolescente, Paulo Lola. E eu dizia “esse cara é do SNI. Esse cara tá no SNI”. E ele falava comigo e toda vez que dizia “esse cara é do SNI. Esse cara é do SNI”. Olha, passado tudinho, 85 eu me separei, depois que acabou a ditadura também acabou o casamento da gente, né, porque foi não só um período de muita dificuldade. Olha, um casamento em condições normais ele já é um processo de extrema luta, extrema dificuldade e resistência. Tu imagina a nossa. Onde tu não tinha mais apoio da família dela nenhum, apoio da minha família já era difícil. Então como é que eu sobrevivia? Passei a capinar quintal na vizinhança, nas casas das pessoas de bem porque todo o emprego que eu arrumava eu era demitido, né. Todos. Eu fui pro comércio, com dois meses chegaram os caras do SNI e me demitiam. Eu fui bancário do Bradesco em 83 e só passei, não cheguei a completar 3 meses. Digitador, ficava escondido ali na agência do Bradesco onde a Berna e a Lurdinha trabalhavam. A Lurdinha já tinha 7 anos, nós 3 somos demitidos. Eu, a Concha e a Lurdinha. A Concha já tinha uns 8 meses e a Lurdinha tinha 7 anos. Fomos demitidos pelo SNI. Então era um processo de desestruturação econômica, aliado a uma questão. Eles tinham uma avaliação muito grande, assim, do lado psicológico, por exemplo, a Beth era uma pessoa que tinha medo de ladrão, de roubo. O quê que os caras faziam? Quase toda a noite a nossa casa era, havia tentativa de roubo quando a gente tava dormindo. Um cara sentava na janela do nosso quarto, e tinha uns vidros assim na janela, sentava, pegava uma chave de fenda e fazia crec crec (barulho de ferramenta raspando a janela). Ele não queria roubar, porque ela se acordava com aquela cena e ficava “socorro, socorro” e ela entrava em desespero. Ai eu pegava um terçado e saía, rodava a casa e não tinha ninguém. Isso era sistemático. Quase todo o dia. Isso era uma técnica de tortura. Psicologicamente eles foram nos destruindo. 

Além da convivência ficar ruim, né? Tensa, né? Era, tensa. E aí vocês se separam quando? A gente se separa em 85. Antes do julgamento ou depois? 

Não, depois do julgamento. O julgamento é em 84. O julgamento é em 84 e tem um momento que o Lula vem, vai lá com vocês. Nas diretas, né? É, nas diretas porque um das nossas audiências se dá exatamente no dia do comício das diretas. Vai o Brizola, Ulisses Guimarães e o Lula, lá na audiência no Tribunal. E o Lula é o cara que vai e quebra todo o protocolo. Ele entra e vem dizer “Companheiro…”, aperta a mão de um por um dos oito. “… isso não há de ser nada. Você vai sair daqui livre. Porque essa ditadura não tem mais moral pra condenar ninguém”. E o juiz parou porque, olha, no tribunal militar aquela ação, se tu for seguir pelo que diz a lei, era pra ter dado voz de prisão pra ele, mas o que era o respeito a figura pública nacional. Um próprio juiz da ditadura teve que respeitar e se calar, deixar aquela quebra de protocolo ocorrer. E ai o processo saí. 

Ninguém é preso, nada? Não, não. 

Vocês são absolvidos? 

Somos absolvidos. Porque não havia mais condições, né, políticas. As campanhas das Diretas Já tinha esmagado qualquer reação da extrema direita no interior da ditadura. Então por isso, nós já tínhamos essa avaliação. 

O julgamento foi em 84? 

Foi em 84, durante o comício das diretas. O julgamento? 

É (risadas). Quem é que não fazia essa avaliação que nós seríamos todos absolvidos?!

Vocês foram todos absolvidos? E vocês se separam depois? 

Fomos todos absolvidos. É em 85, um ano depois. 

E a Beth? A militância dela? 

Ela continua a militância e ela vai embora pra São Paulo, porque vem o giro ao movimento sindical, né. Naquela época o alicerce era o giro ao movimento estudantil, então toda a organização vira alicerce. Ai depois a organização determina o giro ao movimento sindical. Então todo mundo ia pro sindicalismo. E ai onde era forte o sindicalismo a nível nacional era em São Paulo. E ai a Beth vai pra São Paulo. Vai o Fernando Carneiro, a Marcinha.

Acho que a Lurdinha vai também? 

É, parece que vai. 

Tu não vais por que? 

Eu não vou. Eu não vou porque já tinha experimentado, né, uma relação muito ruim com a organização. O próprio isolamento. Porque tu sabe que existe a luta interna, né. Eu acho que nessas horas, e isso vai sempre existir, quem na conquista do poder, pela conquista da direção, quem for fraco. E queira ou não eu estava bastante enfraquecido nesse momento mas eu não deixei, nunca abandonei de ser Convergência. Tanto que depois eu tento retornar. Retorno. Vem uma eleição de chapa aqui no DCE. Eu me lembro que em 85 logo após a gente ter sido absolvido, final de 84, setembro, em 85 eu volto a militar no movimento estudantil. E o centro acadêmico era dirigido pelo Glis, o Leonardo Pantoja, me indica pra ser candidato ao colegiado do curso. Eu participo em uma eleição democrática e sou eleito coordenador do colegiado de História, né. Junto, no mesmo período, tu tem a eleição direta pra reitor, que era o Seixas Lourenço. 

Em 84 isso então? Não, em 85. 84 é a eleição. A posse se dá em janeiro de 85. E ai eu não tomo posso. Tu tem a intervenção, né. Eu me lembro que nessa época o Edison Franco, que era o presidente do CESEP, UNESPA na época, eles todos se manifestam dizendo que era um absurdo. O Antônio Vaes, da FICON, “Onde já se viu um estudante dirigir um órgão colegiado de uma universidade”. Só que ai nós tínhamos aprovado esse regimento eleitoral, funcionários, professores e estudantes, conjuntamente. Eu me lembro que o Heraldo Maués na época declarou voto em mim pra ser coordenador do colegiado e nós vencemos porque, queira ou não, o eleitorado maior era o estudantil. Mas não assume, né? Mas não toma posse. 

E aí, depois, o que tu fazes? Ai a Beth já tá pra São Paulo? 

Já está pra São Paulo. 

Qual era o relacionamento logo após? Fica um bom relacionamento? 

Não, não fica. Ela, até hoje, por exemplo, quando ela me vê se eu tiver no ônibus e ela tiver no interior do ônibus ela se levanta, puxa a corda e desce. Se eu estiver na calçada se ela me enxerga de longe, ela atravessa a rua. Não sei. 

E ela ainda tá militando hoje? Não, não. 

Depois dessa experiência, ela ficou quanto tempo pra lá? 

Ela ficou, eu só consegui meu divórcio em 91 quando ela retornou. E retornou casada com um cara, quer dizer, vivendo com um cara, como eu já estava vivendo em 87 conheci a Eliete que vivo até hoje com ela, tenho dois filhos. E ela vem com esse cara por causa dos pais dela, um cara da Convergência. Pra tu ver. O cara era militante da Convergência. Ela vem pra Belém com ele e vai morar na casa dos pais dela. 

E ela tá com esse rapaz? 

Tá com ele até hoje. Não é mais militante da Convergência. 

Eles vem, mas por que ela retorna? Já em divergência com a Convergência? 

Eu não sei. Não posso te dizer porque eu não tenho o menor contato com ela. 

E hoje ela faz o que? 

Não sei. Não tenho nada, nada, nada. Nenhum tipo de contato. E nem a nossas amizades são. Ela se afastou de todo mundo. 

Ela saiu da organização e da luta? 

E da luta de maneira geral. 

Do processo todo, né? 

Tá. 

E com isso levou também o companheiro dela? 

Foi, ele ainda militou aqui um período, quando eles vieram pra cá. Depois ele se afasta também. Eles tem uma filha, inclusive da idade do meu filho, meses, dois meses de diferença. 

Como é esse processo de depois tu pedir separação? 

Bem, durante esse período, engraçado que pro resto parou pra mim não tinha parado a perseguição. Eu me lembro que em 88 quando se comemorou aqui os 35 anos da UFPA, eu vim pra cá na gestão já do Nilson, não foi? E ai quando terminou me lembro que foi uma churrascaria contratada fazer o serviço aqui no estacionamento do Vadião e quando terminou na hora de ir embora, então eu vou saindo, uma viatura da PATAM para e ai o cara desce. Um tenente la. E pede minha identificação ai na porta do campus 1, ai eu apresento minha carteira de estudante, “Carteira de estudante é identificação?” ai ele me dá uma bolacha. Eu reagi e dei um soco nesse cara. Como era muita gente, tava o Bito, virou um grande furdunço. Pei pei, cacete, cacete. Chama viaturas, vieram 11 viaturas. Eu só sei o seguinte, que eu acordei eu tava na delegacia da Cidade Nova já no outro dia, isso foi umas 17 h – 18 h da tarde, todo quebrado. Tinha quatro costelas quebradas. E esses caras de 17 horas até de madrugada quando levaram eles queriam matar e só não mataram porque dentro do camburão tava eu, tava o Bito, tava mais três pessoas que foram presas junto. 

Quem é Bico? 

Bito, é o Bito. Tem a Rosineide também que era colega do Bito, lá do Cabil. E ai eu vim saber depois, né, quando vou dar entrada no processo de anistia, que tudo isso dai, né, tudo isso dai foi comedidamente tramado. 

Tu tem esses documentos? 

Tenho todos esses documentos. Depois tu pode dar pra gente tirar xerox? O Fernando deu o dele. Tá?

 (Afirma com a cabeça) é uma maçaroca. Tem, assim, só resumo, né. Ta a data, CVTC, CVT, que é Carlos Vinícius Teles da Costa. Eles colocam inclusive que eu tava, era tão absurdo esses caras, né, que eles colocam que eu tava no ato aqui em Belém, no ato em Fortaleza e no ato em Manaus num mesmo dia (risadas). Acho que esses membros do SNI, eu me lembro que foi o Collor que acabou com o SNI, né, o cara que vai desestruturar o órgão da ditadura vai ser o Color em 91. Tanto prova disso que eu sou, que eu dei entrada no meu processo de anistia em 97 e só fui julgado em 2009. E em 92 uma cunhada minha, né, eu tava na casa da irmã da minha esposa, nós fomos no Conjunto D. Pedro II que fica pra trás do Metropolitano. E um conjunto, assim, fechado, com piscina e tal, quando a gente chega lá tá esse Paulo Lola, né, que foi meu vizinho na adolescência, quando eu tava no Maguari, morava numa casa no canto, chegou pra mim e “Carlos Vinícius, égua cara, se tem um cara que não presta tu tava certo. É esse Collor. Deixa eu te dizer, eu era do SNI. Esse cara acabou com a gente. Eu ganhei duas casas só pra te acompanhar naquela época do Maguari. Toda vez que tu entra numa assembleia dos moradores eu ia com um relógio que tinha uma câmera, né, ou então um botão na camisa e toda vez que tu falava eu só fazia ligar. O relógio era um relógio que só mexer e pronto. Eu só tinha essa responsabilidade. Ganhei duas casa no Conjunto Maguari só pra te acompanhar”. Quer dizer, né. Eu me lembro que na época o Collor disse que no MEC tinha 120.000 funcionários, na saúde tinha 200.000 e no SNI tinha 360.000. Era um absurdo. Então tinha gente que ganhava e não fazia nada, tá ai a prova. Quer dizer, como é que eu tava em Belém, em Manaus e Fortaleza no mesmo dia? Quer dizer, gente que ganhava dinheiro dizendo “olha, eu vou acompanhar o Carlos Vinicius que vai pra Manaus”, “Vou acompanhar que ele vai pra Fortaleza” (risadas) e ganhavam dinheiro. Vinícius. 

E qual foi o resultado do teu pedido de reparação? 

É, eu pedi sobre a questão laboral, o que eles não deram. Ele só me deram a questão administrativa. Eles me deram só o que são 30 salários por cada ano no processo. O processo foram 2 anos, eu ganhei 60 salários. Só que eu entrei com recurso porque a questão do Bradesco eles disseram que, eles não me deram porque eu não tinha como comprovar qual era minha função no banco. Que a minha carteira de trabalho, eu fui assaltado em 85 na feira do açaí, levaram todos os meus documentos e quando eu tentei ir ao Bradesco pra pedir que eles assinassem eles se negavam, porque o Bradesco foi um banco que colaborou com o regime militar, né. Quando eu ganho essa parte administrativa de 60 salários mínimos ai eu entrei na justiça federal, na 1° regional, e o juiz obriga o Bradesco a assinar minha carteira. E ai eu vou no Bradesco com uma ordem judicial, ai eles enviam a carteira pra Osasco, onde é a matriz do Bradesco, e passa 26 dias pra me devolverem essa carteira e eu tinha 1 mês prentrar com recurso. Pra tu ver como um banco, a família Lázaro Brandão, foi extremamente colaboracionista com a ditadura civil militar nesse Brasil. 

Mas tu tá ainda com recurso? 

Eu to ainda com recurso. 17 Tá bom. 

Qual é a avaliação que tu faz dessa tua militância hoje? O quê que tu dizes? Valeu a pena? Contribuiu em quê na tua vida? Qual balanço que tu faz de tudo isso? 

Eu posso dizer que eu sou um dos caras, assim, que, não só eu, acho que talvez…, nós somos quantos que foram processados na lei de segurança no Brasil? Não chega a 3.000, né. Quantos foram os que foram pras ruas e quantos foram os que militaram contra a ditadura? Uns 200.000 ou mais, né. Eu acho que nós contribuímos imensamente para esse processo que nós vivemos hoje na redemocratização. Eu acho que tudo o que eu passei, e não foi fácil, de todos nós, eu acho que fui a pessoa, assim, que… que tive que ir ao fundo do poço diversas vezes e consegui sair. Sair, por exemplo, pra me formar, fui me formar pela Unama, o pela Unama não, me desculpe, pela UEMA em História, porque acabei sendo prescrito aqui na federal, em 2000. Eu já tava, eu lecionava na rede privada e as disciplinas só eram ofertadas pelo turno da manhã e eu não podia deixar de trabalhar pra poder estudar. Eu me lembro que na época era, eu não to lembrado o nome da coordenadora, que ela dizia assim “Eu não posso estudar de manhã porque eu trabalho” ai ela me disse “Mas isso daqui é dinheiro, se você não perceber isso então não tem porque você…” né, foi uma pena. Eu sei que teve 28 anos pra me formar e só fui me formar em 2008. Passei no vestibular em 2004 pela UEMA, que ai as aulas eram só sábado e domingo. Então eu podia trabalhar e estudar. E ai eu me formei e graças a deus hoje eu sou, passei em concurso pra SEDUC, pra Belém, só que a minha classificação ficou em 220, eram 360 e esse governador ai, esse Jateve, né, não chamou. Simplesmente hoje tu tens só em História, tu tens 562 temporários no estado. Quer dizer, e nós somos ai 140 esperando a nomeação do concurso que já prescreveu. Foi em 2008 no governo da Ana Júlia e foi prorrogado até 2012 e agora a gente tá vendo ai como tá sendo difícil. Passei no concurso em Marituba que também foi, é foi anulado. E no concurso da prefeitura de Augusto Corrêa eu também fui classificado e onde eu trabalho até hoje desde 2010. 

Vinícius, quero lhe agradecer. Você permite que a gente publique seu depoimento? 

Claro, não tenha dúvidas (risadas). 

Eu só queria… Obrigada, viu. 

Só mais uma última. A tua única organização foi a Convergência? 

Foi a Convergência. Quer dizer mais alguma coisa?

É, eu queria. Queria só pra concluir, eu acho que nós tivemos não só esse papel importante, né, no processo da redemocratização mas também eu acho que pela minha vida até hoje eu tirei muitas lições, né, a leitura que eu faço da realidade, dos conflitos que a gente vive e como deve se intervir, eu acho que isso é muito rico. Isso nos proporcionou não só experiência pra nossa vida, né, como também a transmissão de passar isso adiante. Eu acho que essa é minha função inclusive como educador. Passar o que é lutar pela cidadania, o que é lutar pra ter direitos, o que é lutar pra ter uma sociedade mais igualitária. Eu acho que isso foi muito importante, tudo aquilo que nós vivenciamos e experienciamos ao longo desse período, que foi a luta contra a ditadura e que foi hoje, né, que muita gente nem sabe quanto foi custoso ter essa democracia que nós vivenciamos hoje. Eu acho que esse nosso papel foi de extrema importância pro avanço dessa sociedade.




sexta-feira, 31 de julho de 2026

Crônicas de um Educador de Escola Pública (Livro)

 





📖 LANÇAMENTO!  


CRÔNICAS DE UM EDUCADOR DE ESCOLA PÚBLICA 


Escritor José Ribamar Lira de Oliveira 


Memórias, Lutas e Resistências na Educação que Transforma


Um relato verídico da educação na Amazônia.  


Histórias de luta, esperança e transformação.


*R$ 50,00* | Envio para todo Brasil 🚚  

Peça pelo WhatsApp: *(91) 98499-6619*

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Sessão de Autógrafos na XXIX Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes - Belém do Pará (Brasil)

 






Sessão de autógrafos na maior feira do Norte! 


📚📚📚


29ª FEIRA PAN-AMAZÔNICA DO LIVRO E DAS MULTIVOZES  

Dia: 30/08/2026 - Domingo  

Horário: 16h  

Local: Hangar

 Stand Escritores Paraenses 


E com 2 livros lindos representando a Amazônia e a Educação:


1. Educação na Amazônia em Repertório de Saberes: o Sistema de Organização Modular de Ensino, (Org. Marina Sousa, Sérgio Bandeira e Ribamar Oliveira)  - Vol. III  

   

2. Crônicas de um Educador de Escola Pública  

   José Ribamar Lira de Oliveira  

   "Memórias, lutas e resistências na educação que transforma"  

 


16h no Hangar, Stand Escritores Paraenses


16 horas no Hangar.  

Caneta na mão, coração na ponta.  

Livro novo cheirando tinta.  

Gente chegando com história pra contar.  


Não é só autógrafo.  

É encontro.  

É aluno que virou leitor.  

É professor que virou colega.  

É Amazônia assinada, página por página.


Dia 30 de agosto(Domingo), às 16h, Stand Escritores Paraenses 

Contamos com  presença de tod@s! 

E a educação paraense ganha mais voz.


Agende -se!


Prefácio produzido pela Mestra Marina de Sousa Costa para o livro Crônicas de um Educador de Escola Pública


           Estava eu, me preparando para receber a fase da aposentadoria, tecendo algumas expectativas para um tempo de ficar de boa, de não ter nada, no rigor do relógio,  para fazer. Eis que meu amigo José Ribamar, querido Ribinha, me entrega sua produção literária para ler e ajudar na revisão, e me “intima” a prefaciá-la. Logo, minhas expectativas tiveram que incluir alguns fazeres que imaginava, não mais exerceria.

           Prefaciar uma obra, que trata no seu maior campo, as vivências no Sistema Modular de Ensino, é motivo de orgulho e atividade irrecusável. Trata-se de apresentar algo que é parte de mim, é parte de minha história. Falarei com a propriedade de quem, durante quinze anos, viveu no Sistema Modular de ensino, grandes experiências profissionais e experiências de vida extraordinárias. Portanto, me sinto muito a vontade para essa apresentação, com uma certa pavulagem.

           Essa obra merece destaque porque sugere diálogo, se estrutura na construção de narrativas através da fala de personagens que retratam uma realidade vivida, Abir e Emos, que no processo inverso das grafias, tecem um embaralhamento dos acontecimentos por eles vividos nos trilhos da Educação e mais, essencialmente, no então Projeto de Ensino Modular, atualmente já regulamentado como Política Pública de Educação do Estado do Pará.

           Abir e Emos, mergulham nas conversas que emergem de suas memórias, em episódios que eram vividos por eles, mas que também não eram únicos. Das suas histórias identifica-se explicitamente, também, as histórias de muitos e muitas, no universo dimensional paraense, abrangido pelo SOME. São tantas situações enfocadas, no campo de trabalho, longe de ser uma ocorrência pontual ou isolada, pois o exercício da docência no SOME, sempre esteve cercado de um conjunto de fatores pertinentes  na consolidação da prática educativa, formando um eixo de necessária interação, envolvendo, entre outras, o percurso e mobilidade de acesso dos profissionais da Educação até a localidade de trabalho, a chegada, a moradia temporária, o material de trabalho, a acolhida na comunidade, a inserção na escola, a aproximação com as famílias dos educandos e das educandas, etc. por fim, até a ressonância do papel docente e os resultados de seu trabalho.

           É por todos esses segmentos que acabei de elencar, que Emos e Abir, se debruçam a transportar para as páginas literárias, as páginas da vida. São episódios de quem experienciou a essência da Educação, entre um emaranhado de ir e vir, entre transtornos e êxitos, entre pesos e levezas, cansaço e regozijo, desgastes e sucessos, insegurança e empoderamento etc.   

           Nas narrativas de Abir e Emos, fica a transparência dos seus prazeres por oportunizarem a adolescentes, jovens, homens e mulheres, descobrirem-se como sujeitos sociais de direitos, apontando caminhos em que eles possam assumir o protagonismo de suas próprias histórias.       

           É muito interessante a escolha do autor no formato de sua obra, dando vida a personagens que discorrem sobre as vivências, do próprio escritor, de forma simples, suave e agradável. Uma leitura imperdível. Parabéns, Ribinha, pela ousadia e pela grandeza da obra. E obrigada pelo convite.  

                    



                        Marina de Sousa Costa 


                             SUCESSO!

domingo, 12 de julho de 2026

Crônicas de um Educador de Escola Pública - Lançamento de Livro

 



Flay de Lançamento


No último dia 07, foi lançado o livro Crônicas de um Educador de Escola Pública, com apresentação do historiador, poeta, escritor e membro da Academia de Letras de Ananindeua - ALANIN José Ribamar Lira de Oliveira, autor do livro; o prefácio da professora e mestra Marina de Sousa Costa, a primeira orelha do escritor AroDinei Gaia e a segunda, do publicitário, poeta e escritor Nailson Guimarães e o posfácio do professor, escritor e doutor Edilson Pantoja; pela LiterAmazônida Editora e Livraria Eletrônica, em São Luis do Maranhão. Em Belém do Pará, o lançamento acontecerá no dia 29 de agosto próximo, às 17h, na Feira de Livros, Hangar, no Stand Autores Paraenses. O lançamento do livro aconteceu no Sebo Livraria do Arteiro, na capital maranhense, com presença de amig@s, familiares e convidad@s. Após apresentação do livro pelo autor, a palavra foi franqueada para o público presente com perguntas e considerações, sessão de autógrafos, sorteios de camisas com capa do livro, coquetel no local do lançamento e comemorações no Centro Cultural de São Luis e na Churrascaria Ferreiro Grill. O Autor agradece tod@s que participaram do lançamento. O evento foi um sucesso.


Capa do Livro


Segundo o historiador, cordelista, escritor e compositor AroDinei Gaia:  Nesta obra que hora o escritor Ribamar Oliveira presenteia a literatura paraense, narra as aventuras do protagonista Abir Arievilo nas andanças pelo interior do Pará na majestosa missão educacional pelo Sistema Modular.

Personagem e autor se fundem em um mesmo protagonismo.

Ribamar Oliveira e Abir Arievilo, são os mesmos personagens que, por anos protagonizaram o ensino nos mais longínquos cantos do interior paraense, na sacerdócia missão de levar educação para o povo amazônida.

            As experiências educacionais reais do autor e a vivência do personagem revelam, por meios de crônicas, a gigantesca contribuição do mestre Riba na educação paraense, seja nas águas, nas florestas, nas estradas ou na área urbana. Sua formação como historiador contribuiu para a afirmação identitária, para o revisitar da memória, a valorização cultural e o registro da história de nosso povo, é a história das mentalidades.

            Ribamar se aposentou, deixou o SOME? Ora! Nunca. Ele se levantou da rede do descanso merecido para continuar defendendo o gigante do norte através de sua caneta e das teclas de seu computador. Riba e Abir continuam na ativa, servindo como fonte para pesquisadores, vigilante das proezas moduleiras e, principalmente, produzindo seus textos e descortinando para o mundo, por meio da literatura, as façanhas educacionais da maior política de inclusão educacional de toda a Amazônia, quiça do país.

           


Exposição sobre o Livro


Já para o publicitário, escritor, poeta e membro da Academia de Letras sde Ananindeua - ALANIN, na segunda orelha do livro diz o seguinte: Este livro, é mais que um relato de experiências: é um testemunho de coragem, sacrificio e dedicação de um professor que fez da educação sua missão de vida.
           Aqui encontramos a luta incansável deste mestre, por uma escola pública de qualidade, enfrentando desafios cotidianos com firmeza, sacrifício e esperança. 
                Meu querido amigo Ribamar é confrade da Academia de Letras de Ananindeua(ALANIN), um verdadeiro companheiro de batalhas, que transformou suas vivências em palavras que inspiram e fortalecem todos nós.
               Sua trajetória mostra o peso dos sacríficios pessoais e profissionais, mas também a grandeza de quem acredita que ensinar é um ato de resistência e amor.
          Nós, que fazemos parte do processo de construção final deste livro, sentimos orgulho em compartilhar essa jornada e em ver nascer uma obra - que não apenas registra memórias - mas também reafirma o compromisso coletivo com a Educação de qualidade.



Apresentação do livro pelo autor


Aos leitores e leitoras interessad@s em adquirir, entrar em contato com o autor ou com a Editora LiterAmazônida e Livraria Eletrônica.



Sr. Waldemar e esposa com livro



Sra. Fátima Sarmanho adquiriu seu livro



O Livreiro Arteiro com Livro



Maria Clara adquiriu seu livro



Sra. Lucidéia adquiriu um livro


Profª Marluce com seu livro




Sr. Fernando adquiriu o Livro


Autografando



Sra. Manuela foi sorteda com uma camisa



O autor com os presentes


O autor e esposa




O autor com os presentes



Local do Lançamento


sexta-feira, 5 de junho de 2026

Cumaru no Dia Mundial do Meio ambiente

 


Viva o Dia Mundial do Meio Ambiente!




Hoje é  o Dia Mundial do Meio ambiente 

Dia considerado marcante 

É o chão que pisamos e ser prudente 

É o igarapé que é importante 





É a floresta do nosso povo

Que vem a medicina popular 

Com plantação de novo

Onde residimos e fazemos nosso lar





Na Vila de Cumaru se aprende 

Se derrubar, falta a alimentação  

Se mata o igarapé, não atende

Depende do homem e sua ação 


No meio ambiente e seu dia mundial 

Comemora-se com felicidade 

Nesta data primordial 

Alegria e sorrisos com intensidade 


Momento crucial 

Que vem com vigor

É na roça neste dia especial 

Combativa destruição com rigor


É o mangue que vem

O domínio do igarapé 

Orienta nossa origem

Com roça no pontapé


Este chão é nosso mato  

Daí que vem o sustento.  

A queima é um fato 

Temos que ficar atento


Temos que natureza cuidar 

E plantar todo o tempo

O progresso cede lugar.  

Pra tirar sem ser contratempo


Deixa nossa mata em pé 

E o homem sustentar

Salvar nosso igarapé 

Vamos todos destruição divulgar


Esse é o nosso meio ambiente 

Que não se deixa apagar 

Com  ganância patente

Sem deixar de usar


Então respeita a terra nosso chão  

Respeita o ar, igarapé e o igapó.  

Sem meio ambiente com inspiração 

 Cumaru, não poderá terminar só.


Cumaru, Vigia de Nazaré, Pará,

05/06/2026  

Ribamar Oliveira

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Educação Ribeirinha


Durante muito tempo, populações do interior do país, especialmente no Estado do Pará, foram excluídas do acesso à educação. Essa exclusão se agravou no período da Ditadura Militar, quando os moradores de ilhas, rios, lagos, igarapés, furos e baias não eram prioridade das políticas públicas. Na Amazônia, os investimentos do governo federal concentraram-se nos grandes projetos, incluindo a construção de vilas com infraestrutura voltada ao atendimento do grande capital, que passou a ocupar esses espaços com apoio dos militares.

Este texto foi pensado a partir do período em que atuei como professor itinerante no Sistema de Organização Modular de Ensino (SOME), percorrendo diferentes regiões do Estado do Pará. Considerado uma das mais importantes políticas públicas de inclusão educacional da Amazônia, o SOME foi implantado em 15 de abril de 1980 pela Fundação Educacional do Estado do Pará (FEP), inicialmente em quatro municípios: Curuçá, Nova Timboteua, Igarapé-Miri e Igarapé-Açu. Com os resultados positivos da experiência inicial, essa política pública expandiu-se por todo o território paraense como alternativa de acesso à educação para filhos de camponeses, quilombolas, ribeirinhos, assentados, indígenas e extrativistas, além de moradores de rios, igarapés, furos, estradas e ramais, que não tinham condições de se deslocar até as cidades ou sedes municipais onde havia ensino regular, sobretudo por limitações financeiras.


Ao longo de trinta anos de trajetória profissional como educador vinculado ao SOME, atuei em diversos municípios e localidades ribeirinhas, acumulando experiências e vivências marcantes. Passei por Terra Santa, Juruti, Aveiro, Almeirim, Sapucajuba (Abaetetuba), Maúba (Abaetetuba), Itacuruçá (Abaetetuba), Urubuéua Fátima (Abaetetuba) e Nova Providência (Bujaru), entre outros lugares onde desenvolvi minhas práticas educativas.


Com a promulgação da Lei nº 7.806, de 29 de abril de 2014, o SOME deixou de ser apenas um projeto e passou a ser reconhecido oficialmente como política pública educacional. Esse avanço foi resultado das articulações entre professores, o SINTEPP e o governo estadual da época. Embora a lei não atendesse integralmente às reivindicações da categoria, sua aprovação representou uma conquista importante para os professores.


Como sabemos, a oferta do ensino fundamental e médio no campo ainda ocorre em condições precárias, pois os investimentos que deveriam ser realizados pelos governos, em geral, não se concretizam. Na prática, muitos educadores continuam atuando em barracões, centros comunitários, igrejas e até debaixo de árvores, frequentemente sem carteiras e sem qualquer infraestrutura adequada. Diante dessa realidade, os professores buscam, com os recursos disponíveis, qualificar as atividades pedagógicas. 

domingo, 17 de maio de 2026

Atuação como educador no Estado do Pará

 

 


Após minha formação pedagógica no antigo CTRH, em maio de 1989, ingressei no Sistema de Organização Modular de Ensino (SOME), política pública da Secretaria de Estado de Educação do Pará (SEDUC/PA) voltada aos municípios e localidades mais distantes, onde não havia oferta regular de ensino médio. Nas comunidades do interior, vivi uma experiência singular e muito enriquecedora, pois continuei desenvolvendo o resgate de suas histórias e memórias, utilizando a história oral como recurso metodológico nas práticas educativas, com foco no ensino médio e, em Abaetetuba, no ensino fundamental maior.

 



Em minhas andanças pelos rincões do Pará, trabalhei intensamente com o resgate histórico, as memórias, as histórias de vida e a história local. O SOME se organiza em quatro módulos, cada um com 50 dias letivos, que correspondem ao ano letivo do aluno. Criado em 1980, o programa funcionou por 34 anos como projeto da Secretaria. Após muita mobilização da categoria, nós, educadores, conseguimos transformá-lo em política pública em 2014, por meio da Lei Estadual nº 7.806. Anualmente, o SOME atende, em média, 35 mil alunos, conta com 1.200 professores e alcança cerca de 500 localidades.

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Fui professor de História do ensino médio na rede pública do Estado do Pará e, por último, estive lotado na Escola de Ensino Fundamental e Médio “Dom Mário de Miranda Vilas Boas”, no município de Bujaru, vinculado à 11ª DRE, em Santa Izabel.

 

Meu primeiro circuito no SOME foi composto pelos municípios de Terra Santa, Afuá, Juruti e Almeirim. Antes de iniciar as atividades, participei de um treinamento de uma semana no Centro de Treinamento de Recursos Humanos (CTRH), em Marituba, onde hoje funciona a Escola de Polícia, com técnicos, professores e coordenadores dessa importante política pública. Depois disso, ingressei efetivamente no SOME em 17 de abril de 1989, como servidor temporário da Secretaria de Estado de Educação do Pará (SEDUC/PA).

 

Como era minha primeira experiência nesse tipo de viagem, procurei buscar informações sobre o município onde iria trabalhar. Além disso, minha equipe já estava em Terra Santa e era formada pelo casal Zuleide Pamplona e Kleber Barros.

 

Saí de Belém no dia 11 de maio, uma quinta-feira, às cinco da manhã, e cheguei a Santarém por volta das cinco e meia. Passei o dia na cidade, hospedado na casa de amigos da família. Por volta das 17h, saí para o porto, onde embarcaria para Oriximiná em um barco previsto para partir às 19h. Assim que entrei na embarcação, o comandante me orientou a armar a rede, avisando que a viagem seria longa.

 

A primeira dificuldade que enfrentei foi não ter cordas para armar a rede. Corri então até um comércio próximo ao porto, onde se vendia de tudo para embarcações: cordas, redes, mosquiteiros e outros itens. De volta ao barco, surgiu outro problema: eu não conseguia apertar bem o nó no esteio, o que me impedia de deitar-se com segurança. Felizmente, um senhor idoso, de cerca de 70 anos, percebeu meu desconforto, ofereceu ajuda e ainda me ensinou o famoso “nó de porco”.

 

Depois que tudo se resolveu e a rede ficou bem armada, começamos a conversar. Quando contei que era educador na área de História, descobri que aquele senhor dominava muito bem a história factual, presente nos livros didáticos. Ele sabia inclusive as datas e comentou que, se fosse ao lugar onde eu iria trabalhar, certamente me convidaria para realizar alguma atividade que aproveitasse seus conhecimentos.

 

Ele contou que costumava aproveitar os livros didáticos dos filhos e dos netos, já que eles não demonstravam muito interesse pela leitura, ao contrário dele, que gostava de ler, embora não tivesse tido a chance de estudar. Conversamos até tarde da noite, pois sua rede estava armada ao lado da minha. Por volta das quatro da manhã de sexta-feira, chegamos ao destino. Permaneci na embarcação até amanhecer e, por volta das 7h, desembarquei na orla de Oriximiná, com a maré alta.

 

Passei a manhã esperando alguma embarcação que pudesse me levar a Terra Santa, mas nenhuma apareceu. Restou aguardar o barco de linha, que passaria à tarde, embora sem horário definido. Ainda assim, o tempo de espera não foi ruim: aproveitei para conhecer um pouco da cidade e almoçar em um restaurante que servia uma comida típica deliciosa. Depois do almoço, voltei ao porto para continuar aguardando o barco.

 

Às quinze horas, eu e outras pessoas ouvimos o apito distante de uma embarcação. Um comerciante que conversava na orla me disse: “Meu senhor, aquela ali é a embarcação que vai levá-lo para a terra onde vai trabalhar”. Mais de 40 minutos depois, o barco — pequeno, mas coberto — atracou no porto com poucos passageiros. O proprietário me ajudou a subir com as duas sacolas que eu carregava nos ombros. Durante a viagem, conversei com as pessoas a bordo, todas muito gentis; muitas moravam à beira do rio, pouco antes de Terra Santa. Também aproveitei o percurso para admirar as belezas naturais da Amazônia. Foram, ao todo, dois dias de viagem e aventura, usando avião, carro e embarcação. Esses desafios fazem parte do cotidiano dos professores que se dedicam ao trabalho no SOME.

 

O segundo módulo de 1989, no qual desenvolvi minhas atividades pedagógicas, foi no município de Afuá, na Ilha do Marajó, onde trabalhei com a mesma equipe. Naquele período, viajávamos de avião de Belém para Macapá. Lá, aguardávamos o barco da Prefeitura Municipal de Afuá para seguir até a sede do município, onde funcionava o SOME. A hospedagem era na Casa dos Professores, mas as refeições eram feitas na Pousada da D. Olga, onde almoçávamos e jantávamos. Minha impressão sobre Afuá foi a de um lugar acolhedor, que nos proporcionou excelentes condições de trabalho.

 

Meu terceiro módulo no SOME, em 1989, foi no município de Juruti, às margens do rio Amazonas, na divisa com o Estado do Amazonas, próximo a Parintins, conhecida pelo festival dos bois Caprichoso e Garantido. Eu ainda não conhecia Juruti, que, naquele período, me pareceu um município tranquilo, com fortes traços e tradições indígenas. O trajeto de Belém até lá incluía um voo até Santarém e, depois, a espera por uma embarcação que seguisse para Juruti. A viagem pelo rio durava, em média, 14 horas, variando conforme a maré, ao longo do maior rio da Amazônia.

 

Cheguei ao município à noite. Como carregava duas sacolas pesadas — uma com livros e outra com roupas —, pedi a um rapaz com carro de mão que as levasse até a Casa dos Professores, localizada a cerca de 300 metros do porto. No caminho, comecei a conversar com ele e a recolher informações importantes sobre a cidade, já pensando no levantamento histórico da sede e do município.

Ao chegar à residência, soube que um grupo de colegas já havia iniciado as aulas. Como meu calendário ficava entre um módulo e outro, eu costumava trabalhar com duas equipes: uma saía e a outra entrava. Apresentei-me aos colegas, pedi ao carregador que deixasse minhas sacolas na sala e paguei o serviço.

 

O grupo era formado por cinco integrantes: duas mulheres e três homens. Percebi que todos eram novatos e, por isso, comecei a conversar para me entrosar com a equipe. Uma das colegas já tinha ouvido falar de mim e comentou isso com os demais, pois havia trabalhado comigo no primeiro módulo, em Terra Santa. Apesar das dificuldades de comunicação da época, o convívio entre os educadores do SOME era marcado pela união e pela harmonia. Considerávamos esse trabalho ainda mais exigente do que outras modalidades de ensino, o que fortalecia os vínculos e facilitava a troca de experiências entre os colegas, especialmente entre aqueles que saíam de Belém rumo aos municípios do Oeste do Pará e a outras localidades atendidas pelo programa.


No dia 15 de maio de 1989, uma segunda-feira, iniciei minha atuação profissional como servidor público da Secretaria de Estado de Educação do Pará (SEDUC/PA), como educador da área de História, lotado temporariamente no SOME, política pública voltada ao ensino médio nos municípios e localidades do interior do Estado. Minha atuação começou em Terra Santa, vinculada à Unidade Regional de Educação de Santarém, após o deslocamento que fiz de Belém, com passagens por Santarém e Oriximiná. Ao longo de 29 anos e 6 meses de trabalho no SOME, compreendi que essa política pública foi, para mim, uma verdadeira escola de vida, sobretudo pelas relações pessoais, comunitárias e pelas trocas de experiências que ela proporcionou. Ao relembrar essa trajetória, vêm à memória lugares como Almeirim, Juruti, Afuá, Belterra, São Félix do Xingu, Bujaru, Quatipuru, Tomé-Açu, Santarém, Concórdia do Pará e muitos outros municípios. Também atuei, nesse período, em programas vinculados ao CTRH, à UVA e à própria SEDUC, concluindo essa etapa na localidade de Traquateua, no município de Bujaru. Quero agradecer a todos e todas que conviveram comigo ao longo desse percurso. Sinto-me feliz por essa trajetória profissional e histórica de 37 anos. Valeu por todas as experiências vividas.

 

 

Ribamar Oliveira

Belém do Pará,

17/05/2026. Ver menos