Após minha formação pedagógica no
antigo CTRH, em maio de 1989, ingressei no Sistema de Organização Modular de
Ensino (SOME), política pública da Secretaria de Estado de Educação do Pará
(SEDUC/PA) voltada aos municípios e localidades mais distantes, onde não havia
oferta regular de ensino médio. Nas comunidades do interior, vivi uma
experiência singular e muito enriquecedora, pois continuei desenvolvendo o
resgate de suas histórias e memórias, utilizando a história oral como recurso
metodológico nas práticas educativas, com foco no ensino médio e, em
Abaetetuba, no ensino fundamental maior.
Em minhas andanças pelos rincões
do Pará, trabalhei intensamente com o resgate histórico, as memórias, as
histórias de vida e a história local. O SOME se organiza em quatro módulos,
cada um com 50 dias letivos, que correspondem ao ano letivo do aluno. Criado em
1980, o programa funcionou por 34 anos como projeto da Secretaria. Após muita
mobilização da categoria, nós, educadores, conseguimos transformá-lo em
política pública em 2014, por meio da Lei Estadual nº 7.806. Anualmente, o SOME
atende, em média, 35 mil alunos, conta com 1.200 professores e alcança cerca de
500 localidades.
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Fui professor de História do
ensino médio na rede pública do Estado do Pará e, por último, estive lotado na
Escola de Ensino Fundamental e Médio “Dom Mário de Miranda Vilas Boas”, no
município de Bujaru, vinculado à 11ª DRE, em Santa Izabel.
Meu primeiro circuito no SOME foi
composto pelos municípios de Terra Santa, Afuá, Juruti e Almeirim. Antes de
iniciar as atividades, participei de um treinamento de uma semana no Centro de
Treinamento de Recursos Humanos (CTRH), em Marituba, onde hoje funciona a
Escola de Polícia, com técnicos, professores e coordenadores dessa importante
política pública. Depois disso, ingressei efetivamente no SOME em 17 de abril
de 1989, como servidor temporário da Secretaria de Estado de Educação do Pará
(SEDUC/PA).
Como era minha primeira
experiência nesse tipo de viagem, procurei buscar informações sobre o município
onde iria trabalhar. Além disso, minha equipe já estava em Terra Santa e era
formada pelo casal Zuleide Pamplona e Kleber Barros.
Saí de Belém no dia 11 de maio,
uma quinta-feira, às cinco da manhã, e cheguei a Santarém por volta das cinco e
meia. Passei o dia na cidade, hospedado na casa de amigos da família. Por volta
das 17h, saí para o porto, onde embarcaria para Oriximiná em um barco previsto
para partir às 19h. Assim que entrei na embarcação, o comandante me orientou a
armar a rede, avisando que a viagem seria longa.
A primeira dificuldade que
enfrentei foi não ter cordas para armar a rede. Corri então até um comércio
próximo ao porto, onde se vendia de tudo para embarcações: cordas, redes,
mosquiteiros e outros itens. De volta ao barco, surgiu outro problema: eu não
conseguia apertar bem o nó no esteio, o que me impedia de deitar-se com
segurança. Felizmente, um senhor idoso, de cerca de 70 anos, percebeu meu
desconforto, ofereceu ajuda e ainda me ensinou o famoso “nó de porco”.
Depois que tudo se resolveu e a
rede ficou bem armada, começamos a conversar. Quando contei que era educador na
área de História, descobri que aquele senhor dominava muito bem a história
factual, presente nos livros didáticos. Ele sabia inclusive as datas e comentou
que, se fosse ao lugar onde eu iria trabalhar, certamente me convidaria para
realizar alguma atividade que aproveitasse seus conhecimentos.
Ele contou que costumava
aproveitar os livros didáticos dos filhos e dos netos, já que eles não
demonstravam muito interesse pela leitura, ao contrário dele, que gostava de
ler, embora não tivesse tido a chance de estudar. Conversamos até tarde da
noite, pois sua rede estava armada ao lado da minha. Por volta das quatro da
manhã de sexta-feira, chegamos ao destino. Permaneci na embarcação até
amanhecer e, por volta das 7h, desembarquei na orla de Oriximiná, com a maré
alta.
Passei a manhã esperando alguma
embarcação que pudesse me levar a Terra Santa, mas nenhuma apareceu. Restou
aguardar o barco de linha, que passaria à tarde, embora sem horário definido.
Ainda assim, o tempo de espera não foi ruim: aproveitei para conhecer um pouco
da cidade e almoçar em um restaurante que servia uma comida típica deliciosa.
Depois do almoço, voltei ao porto para continuar aguardando o barco.
Às quinze horas, eu e outras
pessoas ouvimos o apito distante de uma embarcação. Um comerciante que
conversava na orla me disse: “Meu senhor, aquela ali é a embarcação que vai
levá-lo para a terra onde vai trabalhar”. Mais de 40 minutos depois, o barco —
pequeno, mas coberto — atracou no porto com poucos passageiros. O proprietário
me ajudou a subir com as duas sacolas que eu carregava nos ombros. Durante a
viagem, conversei com as pessoas a bordo, todas muito gentis; muitas moravam à
beira do rio, pouco antes de Terra Santa. Também aproveitei o percurso para
admirar as belezas naturais da Amazônia. Foram, ao todo, dois dias de viagem e
aventura, usando avião, carro e embarcação. Esses desafios fazem parte do
cotidiano dos professores que se dedicam ao trabalho no SOME.
O segundo módulo de 1989, no qual
desenvolvi minhas atividades pedagógicas, foi no município de Afuá, na Ilha do
Marajó, onde trabalhei com a mesma equipe. Naquele período, viajávamos de avião
de Belém para Macapá. Lá, aguardávamos o barco da Prefeitura Municipal de Afuá
para seguir até a sede do município, onde funcionava o SOME. A hospedagem era
na Casa dos Professores, mas as refeições eram feitas na Pousada da D. Olga,
onde almoçávamos e jantávamos. Minha impressão sobre Afuá foi a de um lugar
acolhedor, que nos proporcionou excelentes condições de trabalho.
Meu terceiro módulo no SOME, em
1989, foi no município de Juruti, às margens do rio Amazonas, na divisa com o
Estado do Amazonas, próximo a Parintins, conhecida pelo festival dos bois
Caprichoso e Garantido. Eu ainda não conhecia Juruti, que, naquele período, me
pareceu um município tranquilo, com fortes traços e tradições indígenas. O
trajeto de Belém até lá incluía um voo até Santarém e, depois, a espera por uma
embarcação que seguisse para Juruti. A viagem pelo rio durava, em média, 14
horas, variando conforme a maré, ao longo do maior rio da Amazônia.
Cheguei ao município à noite.
Como carregava duas sacolas pesadas — uma com livros e outra com roupas —, pedi
a um rapaz com carro de mão que as levasse até a Casa dos Professores,
localizada a cerca de 300 metros do porto. No caminho, comecei a conversar com
ele e a recolher informações importantes sobre a cidade, já pensando no
levantamento histórico da sede e do município.
Ao chegar à residência, soube que
um grupo de colegas já havia iniciado as aulas. Como meu calendário ficava
entre um módulo e outro, eu costumava trabalhar com duas equipes: uma saía e a
outra entrava. Apresentei-me aos colegas, pedi ao carregador que deixasse
minhas sacolas na sala e paguei o serviço.
O grupo era formado por cinco
integrantes: duas mulheres e três homens. Percebi que todos eram novatos e, por
isso, comecei a conversar para me entrosar com a equipe. Uma das colegas já
tinha ouvido falar de mim e comentou isso com os demais, pois havia trabalhado
comigo no primeiro módulo, em Terra Santa. Apesar das dificuldades de
comunicação da época, o convívio entre os educadores do SOME era marcado pela
união e pela harmonia. Considerávamos esse trabalho ainda mais exigente do que
outras modalidades de ensino, o que fortalecia os vínculos e facilitava a troca
de experiências entre os colegas, especialmente entre aqueles que saíam de
Belém rumo aos municípios do Oeste do Pará e a outras localidades atendidas
pelo programa.
No dia 15 de maio de 1989, uma
segunda-feira, iniciei minha atuação profissional como servidor público da
Secretaria de Estado de Educação do Pará (SEDUC/PA), como educador da área de
História, lotado temporariamente no SOME, política pública voltada ao ensino
médio nos municípios e localidades do interior do Estado. Minha atuação começou
em Terra Santa, vinculada à Unidade Regional de Educação de Santarém, após o
deslocamento que fiz de Belém, com passagens por Santarém e Oriximiná. Ao longo
de 29 anos e 6 meses de trabalho no SOME, compreendi que essa política pública
foi, para mim, uma verdadeira escola de vida, sobretudo pelas relações
pessoais, comunitárias e pelas trocas de experiências que ela proporcionou. Ao
relembrar essa trajetória, vêm à memória lugares como Almeirim, Juruti, Afuá,
Belterra, São Félix do Xingu, Bujaru, Quatipuru, Tomé-Açu, Santarém, Concórdia
do Pará e muitos outros municípios. Também atuei, nesse período, em programas
vinculados ao CTRH, à UVA e à própria SEDUC, concluindo essa etapa na
localidade de Traquateua, no município de Bujaru. Quero agradecer a todos e
todas que conviveram comigo ao longo desse percurso. Sinto-me feliz por essa
trajetória profissional e histórica de 37 anos. Valeu por todas as experiências
vividas.
Ribamar Oliveira
Belém do Pará,
17/05/2026. Ver menos