Durante muito tempo, populações do interior do país, especialmente no Estado do Pará, foram excluídas do acesso à educação. Essa exclusão se agravou no período da Ditadura Militar, quando os moradores de ilhas, rios, lagos, igarapés, furos e baias não eram prioridade das políticas públicas. Na Amazônia, os investimentos do governo federal concentraram-se nos grandes projetos, incluindo a construção de vilas com infraestrutura voltada ao atendimento do grande capital, que passou a ocupar esses espaços com apoio dos militares.
Este texto foi pensado a partir
do período em que atuei como professor itinerante no Sistema de Organização
Modular de Ensino (SOME), percorrendo diferentes regiões do Estado do Pará.
Considerado uma das mais importantes políticas públicas de inclusão educacional
da Amazônia, o SOME foi implantado em 15 de abril de 1980 pela Fundação
Educacional do Estado do Pará (FEP), inicialmente em quatro municípios: Curuçá,
Nova Timboteua, Igarapé-Miri e Igarapé-Açu. Com os resultados positivos da
experiência inicial, essa política pública expandiu-se por todo o território
paraense como alternativa de acesso à educação para filhos de camponeses,
quilombolas, ribeirinhos, assentados, indígenas e extrativistas, além de
moradores de rios, igarapés, furos, estradas e ramais, que não tinham condições
de se deslocar até as cidades ou sedes municipais onde havia ensino regular,
sobretudo por limitações financeiras.
Ao longo de trinta anos de
trajetória profissional como educador vinculado ao SOME, atuei em diversos
municípios e localidades ribeirinhas, acumulando experiências e vivências
marcantes. Passei por Terra Santa, Juruti, Aveiro, Almeirim, Sapucajuba (Abaetetuba),
Maúba (Abaetetuba), Itacuruçá (Abaetetuba), Urubuéua Fátima (Abaetetuba) e Nova
Providência (Bujaru), entre outros lugares onde desenvolvi minhas práticas
educativas.
Com a promulgação da Lei nº
7.806, de 29 de abril de 2014, o SOME deixou de ser apenas um projeto e passou
a ser reconhecido oficialmente como política pública educacional. Esse avanço
foi resultado das articulações entre professores, o SINTEPP e o governo
estadual da época. Embora a lei não atendesse integralmente às reivindicações
da categoria, sua aprovação representou uma conquista importante para os
professores.
Como sabemos, a oferta do ensino fundamental e médio no campo ainda ocorre em condições precárias, pois os investimentos que deveriam ser realizados pelos governos, em geral, não se concretizam. Na prática, muitos educadores continuam atuando em barracões, centros comunitários, igrejas e até debaixo de árvores, frequentemente sem carteiras e sem qualquer infraestrutura adequada. Diante dessa realidade, os professores buscam, com os recursos disponíveis, qualificar as atividades pedagógicas.
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