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domingo, 17 de maio de 2026

Atuação como educador no Estado do Pará

 

 


Após minha formação pedagógica no antigo CTRH, em maio de 1989, ingressei no Sistema de Organização Modular de Ensino (SOME), política pública da Secretaria de Estado de Educação do Pará (SEDUC/PA) voltada aos municípios e localidades mais distantes, onde não havia oferta regular de ensino médio. Nas comunidades do interior, vivi uma experiência singular e muito enriquecedora, pois continuei desenvolvendo o resgate de suas histórias e memórias, utilizando a história oral como recurso metodológico nas práticas educativas, com foco no ensino médio e, em Abaetetuba, no ensino fundamental maior.

 



Em minhas andanças pelos rincões do Pará, trabalhei intensamente com o resgate histórico, as memórias, as histórias de vida e a história local. O SOME se organiza em quatro módulos, cada um com 50 dias letivos, que correspondem ao ano letivo do aluno. Criado em 1980, o programa funcionou por 34 anos como projeto da Secretaria. Após muita mobilização da categoria, nós, educadores, conseguimos transformá-lo em política pública em 2014, por meio da Lei Estadual nº 7.806. Anualmente, o SOME atende, em média, 35 mil alunos, conta com 1.200 professores e alcança cerca de 500 localidades.

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Fui professor de História do ensino médio na rede pública do Estado do Pará e, por último, estive lotado na Escola de Ensino Fundamental e Médio “Dom Mário de Miranda Vilas Boas”, no município de Bujaru, vinculado à 11ª DRE, em Santa Izabel.

 

Meu primeiro circuito no SOME foi composto pelos municípios de Terra Santa, Afuá, Juruti e Almeirim. Antes de iniciar as atividades, participei de um treinamento de uma semana no Centro de Treinamento de Recursos Humanos (CTRH), em Marituba, onde hoje funciona a Escola de Polícia, com técnicos, professores e coordenadores dessa importante política pública. Depois disso, ingressei efetivamente no SOME em 17 de abril de 1989, como servidor temporário da Secretaria de Estado de Educação do Pará (SEDUC/PA).

 

Como era minha primeira experiência nesse tipo de viagem, procurei buscar informações sobre o município onde iria trabalhar. Além disso, minha equipe já estava em Terra Santa e era formada pelo casal Zuleide Pamplona e Kleber Barros.

 

Saí de Belém no dia 11 de maio, uma quinta-feira, às cinco da manhã, e cheguei a Santarém por volta das cinco e meia. Passei o dia na cidade, hospedado na casa de amigos da família. Por volta das 17h, saí para o porto, onde embarcaria para Oriximiná em um barco previsto para partir às 19h. Assim que entrei na embarcação, o comandante me orientou a armar a rede, avisando que a viagem seria longa.

 

A primeira dificuldade que enfrentei foi não ter cordas para armar a rede. Corri então até um comércio próximo ao porto, onde se vendia de tudo para embarcações: cordas, redes, mosquiteiros e outros itens. De volta ao barco, surgiu outro problema: eu não conseguia apertar bem o nó no esteio, o que me impedia de deitar-se com segurança. Felizmente, um senhor idoso, de cerca de 70 anos, percebeu meu desconforto, ofereceu ajuda e ainda me ensinou o famoso “nó de porco”.

 

Depois que tudo se resolveu e a rede ficou bem armada, começamos a conversar. Quando contei que era educador na área de História, descobri que aquele senhor dominava muito bem a história factual, presente nos livros didáticos. Ele sabia inclusive as datas e comentou que, se fosse ao lugar onde eu iria trabalhar, certamente me convidaria para realizar alguma atividade que aproveitasse seus conhecimentos.

 

Ele contou que costumava aproveitar os livros didáticos dos filhos e dos netos, já que eles não demonstravam muito interesse pela leitura, ao contrário dele, que gostava de ler, embora não tivesse tido a chance de estudar. Conversamos até tarde da noite, pois sua rede estava armada ao lado da minha. Por volta das quatro da manhã de sexta-feira, chegamos ao destino. Permaneci na embarcação até amanhecer e, por volta das 7h, desembarquei na orla de Oriximiná, com a maré alta.

 

Passei a manhã esperando alguma embarcação que pudesse me levar a Terra Santa, mas nenhuma apareceu. Restou aguardar o barco de linha, que passaria à tarde, embora sem horário definido. Ainda assim, o tempo de espera não foi ruim: aproveitei para conhecer um pouco da cidade e almoçar em um restaurante que servia uma comida típica deliciosa. Depois do almoço, voltei ao porto para continuar aguardando o barco.

 

Às quinze horas, eu e outras pessoas ouvimos o apito distante de uma embarcação. Um comerciante que conversava na orla me disse: “Meu senhor, aquela ali é a embarcação que vai levá-lo para a terra onde vai trabalhar”. Mais de 40 minutos depois, o barco — pequeno, mas coberto — atracou no porto com poucos passageiros. O proprietário me ajudou a subir com as duas sacolas que eu carregava nos ombros. Durante a viagem, conversei com as pessoas a bordo, todas muito gentis; muitas moravam à beira do rio, pouco antes de Terra Santa. Também aproveitei o percurso para admirar as belezas naturais da Amazônia. Foram, ao todo, dois dias de viagem e aventura, usando avião, carro e embarcação. Esses desafios fazem parte do cotidiano dos professores que se dedicam ao trabalho no SOME.

 

O segundo módulo de 1989, no qual desenvolvi minhas atividades pedagógicas, foi no município de Afuá, na Ilha do Marajó, onde trabalhei com a mesma equipe. Naquele período, viajávamos de avião de Belém para Macapá. Lá, aguardávamos o barco da Prefeitura Municipal de Afuá para seguir até a sede do município, onde funcionava o SOME. A hospedagem era na Casa dos Professores, mas as refeições eram feitas na Pousada da D. Olga, onde almoçávamos e jantávamos. Minha impressão sobre Afuá foi a de um lugar acolhedor, que nos proporcionou excelentes condições de trabalho.

 

Meu terceiro módulo no SOME, em 1989, foi no município de Juruti, às margens do rio Amazonas, na divisa com o Estado do Amazonas, próximo a Parintins, conhecida pelo festival dos bois Caprichoso e Garantido. Eu ainda não conhecia Juruti, que, naquele período, me pareceu um município tranquilo, com fortes traços e tradições indígenas. O trajeto de Belém até lá incluía um voo até Santarém e, depois, a espera por uma embarcação que seguisse para Juruti. A viagem pelo rio durava, em média, 14 horas, variando conforme a maré, ao longo do maior rio da Amazônia.

 

Cheguei ao município à noite. Como carregava duas sacolas pesadas — uma com livros e outra com roupas —, pedi a um rapaz com carro de mão que as levasse até a Casa dos Professores, localizada a cerca de 300 metros do porto. No caminho, comecei a conversar com ele e a recolher informações importantes sobre a cidade, já pensando no levantamento histórico da sede e do município.

Ao chegar à residência, soube que um grupo de colegas já havia iniciado as aulas. Como meu calendário ficava entre um módulo e outro, eu costumava trabalhar com duas equipes: uma saía e a outra entrava. Apresentei-me aos colegas, pedi ao carregador que deixasse minhas sacolas na sala e paguei o serviço.

 

O grupo era formado por cinco integrantes: duas mulheres e três homens. Percebi que todos eram novatos e, por isso, comecei a conversar para me entrosar com a equipe. Uma das colegas já tinha ouvido falar de mim e comentou isso com os demais, pois havia trabalhado comigo no primeiro módulo, em Terra Santa. Apesar das dificuldades de comunicação da época, o convívio entre os educadores do SOME era marcado pela união e pela harmonia. Considerávamos esse trabalho ainda mais exigente do que outras modalidades de ensino, o que fortalecia os vínculos e facilitava a troca de experiências entre os colegas, especialmente entre aqueles que saíam de Belém rumo aos municípios do Oeste do Pará e a outras localidades atendidas pelo programa.


No dia 15 de maio de 1989, uma segunda-feira, iniciei minha atuação profissional como servidor público da Secretaria de Estado de Educação do Pará (SEDUC/PA), como educador da área de História, lotado temporariamente no SOME, política pública voltada ao ensino médio nos municípios e localidades do interior do Estado. Minha atuação começou em Terra Santa, vinculada à Unidade Regional de Educação de Santarém, após o deslocamento que fiz de Belém, com passagens por Santarém e Oriximiná. Ao longo de 29 anos e 6 meses de trabalho no SOME, compreendi que essa política pública foi, para mim, uma verdadeira escola de vida, sobretudo pelas relações pessoais, comunitárias e pelas trocas de experiências que ela proporcionou. Ao relembrar essa trajetória, vêm à memória lugares como Almeirim, Juruti, Afuá, Belterra, São Félix do Xingu, Bujaru, Quatipuru, Tomé-Açu, Santarém, Concórdia do Pará e muitos outros municípios. Também atuei, nesse período, em programas vinculados ao CTRH, à UVA e à própria SEDUC, concluindo essa etapa na localidade de Traquateua, no município de Bujaru. Quero agradecer a todos e todas que conviveram comigo ao longo desse percurso. Sinto-me feliz por essa trajetória profissional e histórica de 37 anos. Valeu por todas as experiências vividas.

 

 

Ribamar Oliveira

Belém do Pará,

17/05/2026. Ver menos

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