Não podemos negar que ensinar é um ato de muita coragem e dedicação em que deixar familiares e amigos para trás não é fácil, mexendo com sentimentos e emoções, mas quem trabalha no magistério do ensino básico, com exclusividade para o ensino médio, nos rincões da Amazônia, seja no Amazonas, seja no Pará ou seja no Amapá entre outros Estados e municípios do Brasil sabe que, antes de chegar nas localidades que desenvolve suas práticas educativas, a coragem precisa enfrentar os rios, igarapés, ramais, estradas e o céu, como acontecia até o ano de 2003, quando o SOME é desestruturado pelos tucanos que estavam no governo estadual. A partir deste ano, esta política pública, fica nas mãos das oligarquias regionais e municipais. No Sistema de Organização Modular de Ensino (SOME), a sala de aula não começa no sinal que bate na escola; ela começa no trapiche, na beira da pista de pouso, na mala arrumada com o peso da ausência de casa, descendo dos ônibus, vans, kombis e o contrabando de esperança por uma educação digna e melhor.
Foram quase trinta anos viajando no mapa do Estado do
Pará, desenhando o chão das escolas e pintando pontes nas vielas da Amazônia
paraense. Quem olha de fora vê apenas o deslocamento entre Belém e os
municípios; quem vive, sente o compasso do coração acelerar quando o motor da
rabeta silencia no meio do estirão ou quando o avião teco-teco, feito folha
seca no vento de fim de tarde, balança nas nuvens pesadas a caminho da capital
das lindas mangueiras, que alegria e que felicidade. No ano de 1990, com
destino para Santarém e desenvolver minhas práticas educativas em Belterra,
base física do Ministério da Agricultura, quando me deparei estava chegando em
Manaus, capital do Estado do Amazonas, que nos acolheu quando o temporal fechou
o teto do mundo; em outras tardes, foi o silêncio súbito de um apagão em pleno
voo que nos fez pensar simplesmente, segurando a pulseira do relógio como se
fosse um amuleto, agora, é interessante esta narrativa dos mochileiros do
Modular.
Nas andanças pelo Pará, viajar por todas essas bandas
é aceitar que a vida flutua pelos bons caminhos com trajetórias lindas. Cortar
as ondas rumo ao Marajó, rasgar a correnteza em direção a Abaetetuba ou
atravessar furos com águas baixas, realmente, não são escritas em um diário de
turismo, que possam servir como relatório de uma agenda bonita. São realidades
diárias, semanais, quinzenais ou mensais. Cada tempestade que deforma o
horizonte é um lembrete da nossa fragilidade, mas cada porto alcançado é a
certeza de que a caneta ainda tem tinta e a voz ainda tem força para abraçar e
trocar o conhecimento com ribeirinhos, quilombolas, indígenas, assentados e camponeses.
O paradoxo é doloroso. Quem governa em gabinetes
refrigerados e dita as regras do orçamento costuma enxergar a educação na
planilha dos gastos, nunca como investimentos. Enquanto canetadas garantem
privilégios e salários intocáveis no topo da pirâmide política, os professores
do SOME segue na base, equilibrando-se em transportes superlotados, enfrentando
a precariedade com a dignidade de quem sabe que o conhecimento é a única ponte
verdadeira para a liberdade daqueles alunos e alunas matriculados nesta
importante política pública.
Mas o rio corre, o tempo avança e a história se
escreve. Apesar do esquecimento institucional, há uma riqueza que nenhuma
autoridade pode confiscar: o brilho nos olhos do estudante que vê a comunidade
mudar porque o professor desembarcou do barco ou chegou de ônibus.
Eles enfrentam o vento, a chuva e o descaso. Mas, no
fim do dia, a lição mais bonita que o SOME deixa nas águas da Amazônia é que,
para um verdadeiro educador, desistir nunca foi uma matéria do currículo. Experiências
válidas e marcantes que ficam na memória e que entram em nossa história.
Viva aqueles que navegam para
ensinar!
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