Abir Arievilo e Emos atuavam no Sistema de Organização Modular de Ensino – SOME, uma política pública que leva o ensino às localidades distantes dos municípios do estado do Pará. Nesse sistema, as aulas são organizadas em módulos, e os professores itinerantes se deslocam da capital e das sedes dos municípios para trabalhar com os alunos e as alunas dessas localidades. Os dois educadores foram lotados para implantar o ensino médio em uma delas, no oeste paraense, às margens do rio Amazonas.
Era o início da década de 1990, e
Abir e Emos seriam os primeiros professores a trabalhar naquela localidade. Na
coordenação do SOME, receberam a notícia de que o prefeito havia passado por lá
e prometido uma festa de arromba para recebê-los. Na noite da chegada, não haveria
aulas: toda a população seria convidada a se reunir na praça, onde uma banda de
música animaria o povo. No palanque, além dos políticos locais, os professores
também fariam seus discursos.
Os dois, que residiam em Belém,
ficaram impressionados com o que ouviram na coordenação. Com a carta de
apresentação em mãos, saíram para pegar o ônibus de volta para casa. Pelo
caminho, Abir perguntou a Emos:
— Emos, você já teve alguma
experiência dessa natureza em sua vida?
— Não, meu amigo, nunca!
— E você, Abir, já passou por
isso?
— Também não!
A conversa continuou durante o
trajeto na “busão”. Em sala de aula, os dois tinham experiência, utilizavam
diversas metodologias e sabiam conduzir o trabalho com seus alunos e alunas.
Mas pegar um microfone e organizar as ideias diante de um público que não fosse
o de seus discentes era outra história.
— Abir, vamos ter que treinar
para falar em praça pública. Concorda comigo?
— Sim, Emos, plenamente. Vamos ter
que passar por isso, né!
— Temos que fazer isso antes de
viajar, certo?
— Com certeza, Emos!
E assim seguiram conversando,
pensando no que poderiam dizer quando estivessem no palanque, diante do povo
reunido na praça.
No dia seguinte, os professores
foram ao Aeroporto Internacional para pegar o avião rumo a Santarém. De lá,
seguiriam até o porto e embarcariam para Juruti. Depois, ainda teriam que pegar
outra embarcação para chegar à localidade onde desenvolveriam suas atividades
pedagógicas.
Quando os professores chegaram à tarde,
toda a comunidade aguardava para recebê-los com respeito. A recepção foi um
sucesso e os professores adoraram como pela parte da noite com presença de
autoridades, políticos e lideranças comunitárias no palanque de implantação da
politica pública na localidade.
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