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segunda-feira, 17 de abril de 2023

NÓS SOMOS EMOS E ABIR

 

                              

“Bem sei que nem tudo são flores, nem utopia, nem realiDAde

Pois quando se decide ser profeSSOR

Não se dá por vaidade, mas talvez por necessiDAde

De ver seu aluno de escola pública subir e ser douTOR.”

(Carlos Prestes – Canto IV, Repertório de Saberes 2)

 

 

         As histórias dos heróis do Sistema de Organização Modular de Ensino – SOME, como as dos Professores Abir Arievilo e Emos, enfatizadas em algumas crônicas neste espaço eletrônico, deixam a gente divagando em torno de algumas reflexões importantes e dúvidas. Olhem só: o SOME, enquanto uma política pública que atua nos interiores do Estado do Pará, tem, do ponto de vista dos educadores que dela participam, uma importância histórico-sócio-cultural e política de grande repercussão frente às populações nas diversas regiões onde funciona e se encontra estruturado. Mas até que ponto essa política educacional é importante? A quem interessa? Outro aspecto que faz parte de nossa reflexão é saber como esses profissionais desenvolvem suas práticas educativas, e em que condições se dá, na prática, o funcionamento desta política pública.


         O Estado do Pará é grande. É o segundo maior território do Brasil. Uma terra de diversidades socioculturais. Grande em extensão e enorme em problemas locais por falta de políticas públicas efetivas e adequadas à realidade de cada região. Nesta terra abençoada, encontramos uma miscigenação de raças, credos, costumes, hábitos; encontramos elementos negros, índios, pardos, mamelucos, brancos, caboclos, cafuzos e também o imigrante das terras do sul do Brasil que veio habitar no sul e sudoeste do Pará. Quem andar pela região da Transamazônica vai encontrar por lá famílias inteiras de imigrantes catarinenses, paranaenses e rio-grandenses que nunca mais voltaram para suas terras de origem. Adotaram o Pará como seu novo berço, como a sua nova terra, mesmo com tantas dificuldades enfrentadas naquele pedaço de chão, começando pela própria rodovia.


         Na região do Marajó e baixo Amazonas que contam com paisagens contrastantes, onde as estradas são os rios, as vicinais são os furos, os igarapés, os braços de rios, e o transporte de mercadorias e de gente é, na maioria das vezes, feito por embarcações de grande, médio e pequeno porte, há algo em comum em relação ao sul e sudoeste: os problemas são muito parecidos entre uma região e outra, pois há falta de infraestrutura efetiva adequada à realidade de cada região, ou seja, melhoria das estradas para escoamento de mercadorias e fortalecimento do comércio local, melhoria no saneamento básico, nas redes de esgoto, no abastecimento e distribuição de água tratada compatível com o censo populacional por região, melhoria e fiscalização mais eficaz no transporte fluvial, a fim de evitar tragédias causadas por naufrágios com população excedente de passageiros e de cargas, como é comum serem noticiadas nos principais meios de comunicação do país.


         E é nesse contexto que a presença de professores do Sistema de Organização Modular de ensino se torna crucial nessas regiões quase que abandonadas pelo poder público. E por que é crucial? Por que a educação faz a diferença em qualquer situação. A educação transforma o animal irracional em um ser social, interativo, relacional, assim como prepara o jovem para ocupar seu lugar na sociedade, tornando-o um profissional e um cidadão útil à sua família, ao meio, ao seu país. É assim que se desenvolve uma nação, elevando-a ao topo do progresso. Só com educação, e educação de qualidade que gere frutos, bons frutos.


         E, para que isso aconteça, é preciso trabalhar no ser humano algo que, talvez, não tenhamos atentado, ou não demos o merecido valor. Estou falando do caráter que vai sendo incutido no ser humano desde os seus primeiros dias de vida. Essa educação que vai sendo aprendida pela criança no dia a dia do lar terá uma forte influência na sua conduta, no seu comportamento, nos seus valores, quer seja para o bem ou não. Por isso, é necessário trabalhar a formação do caráter desde a tenra idade, antes mesmo do primeiro ano escolar, aonde o filho vai sendo moldado – no aconchego de sua casa – nos aspectos éticos, morais e comportamentais, pelos seus primeiros educadores – os pais, entendendo-se que os pais têm como norma esses princípios para suas vidas.


         Paralelamente, vem a formação intelectual, física, espiritual e emocional completando o ciclo de amadurecimento e aprendizagem do educando. O fato de alguém ter estudado em uma escola de tradição, com bons professores, ter feito mestrado e doutorado, e ter adquirido um excelente quinhão intelectual, não o impede de ser tentado a corromper-se, se o seu caráter não tiver sido fortemente moldado no lar pelos bons exemplos e ensinamentos dos pais. As pessoas se chocam quando ouvem que um professor phd, ou um médico renomado, ou um pesquisador, um cientista, é acusado de feminicídio ou violência doméstica. Isso é incomum? Infelizmente, não é incomum. Há uma camuflagem que esconde um falso moralismo no seio da sociedade moderna. E, muitas vezes, estamos falando de pessoas importantes, famosas, inteligentes, intelectuais, doutores e doutoras. Ainda está bem visível na minha mente o fato de que, num dia de aula, na UFPA, uma professora, depois de humilhar um aluno porque ele não tinha sido matriculado naquela turma e, portanto não poderia assistir aula com ela, o expulsou da sala aos gritos, deixando toda a turma espantada e levando o rapaz, que aparentava ter uns vinte e cinco anos de idade, às lágrimas. A turma era de pedagogia. O curso era de pedagogia. O centro era o de educação. A professora era phd em educação e dava aula no curso de pedagogia. O que falar depois disso? A língua fica seca, a boca sem palavras. Parece que estamos perdendo nossa essência, tornando-nos bestas feras.


         As duas coisas têm que andar juntas, família e escola, já dizia José Veríssimo em seu livro A educação nacional (primeira edição de 1889 – Belém, e segunda edição de 1906 – Rio de janeiro). Aliás, as três, o antigo tripé da educação que jogaram dentro de um camburão de lixo, e dali nunca mais tiraram: a igreja (que ensina princípios e valores morais e espirituais à família), a família (que absorve esses princípios e valores e transmite-os aos filhos) e a escola (que dá continuidade ao amadurecimento do aluno através da formação intelectual, física e emocional). Sem essa parceria, não há como melhorar a educação, e não melhorando a educação, a sociedade está propensa à degeneração, uma vez que ela é formada por famílias, e aprendemos desde o antigo primeiro grau (atual ensino fundamental) que a família é a célula mater (mãe) da sociedade. Sem ela, não existe sociedade.


         Portanto, se vivenciamos uma realidade em que crianças, adolescentes e jovens – pertencentes a qualquer classe social – estão se envolvendo com crimes de toda espécie, drogas, furtos, violência, e, por isso, estão perdendo a preciosa liberdade, sendo encarcerados em fundações sob a responsabilidade do estado, e, também, por falta de orientação, seja no lar ou por meio de órgãos públicos especializados, jovens mulheres estão engravidando e formando nova família ainda em idade prematura, ao mesmo tempo em que um adolescente, antes mesmo dos dezoito anos de idade, está se tornando pai sem nenhum amadurecimento físico, intelectual ou social, sem nenhuma habilidade profissional que o qualifique para emprego, sem perspectiva para um futuro próximo. Isso é o reflexo de famílias destroçadas, desestruturadas socialmente, emocionalmente, espiritualmente e, dependendo da classe em que estão inseridas, também podem estar desestruturadas economicamente. E essa característica, na verdade, está presente na maior parte das famílias que têm renda baixa ou nenhuma renda fixa, trabalhando como autônomas. Então, vamos desenterrar esse tripé?


         Aqueles dois professores do Sistema Modular, o Abir e o Emos,  foram deslocados para trabalhar na localidade de Vila Carapanã, no município de São Félix do Xingu, na década de 2000. O Abir e o Emos, eram dois profissionais que, na condição de servidores temporários, não podiam se dar ao luxo de questionar nada, nem as coisas que viam nem as que ouviam falar, já que, na condição de prestadores de serviços, haviam assinado um contrato de trabalho junto à Secretaria Estadual de Educação – SEDUC por um período de dois anos e, devido às condições contratuais, não podiam ir contra as decisões das coordenações. Assim, sem ter um vínculo específico com uma Unidade Regional de Educação – URE, à qual eles pudessem se reportar diretamente, ficavam à disposição de quem precisasse de seus serviços. Nesse caso, se faltasse professor em outra URE, lá iam os dois para trabalhar e tapar buraco, já que a necessidade de mais professores era e, talvez seja, ainda, muito grande, neste sistema de ensino.


         Percebam as brechas que são deixadas pelo poder público que levam ao enfraquecimento do processo educativo, não apenas regional, mas em âmbito nacional, uma vez que o problema com a falta de professores existe tanto no ensino regular ou modular, nas redes estaduais e municipais. E essa falta de professor, o tempo escasso para capacitar-se, a falta de investimento em recursos materiais e recursos humanos nas escolas, a insegurança dos demais atores envolvidos no processo de ensinar e aprender por conta da tal “cultura da violência gratuita”, tudo isso mostra o desleixo das autoridades políticas e executivas, eleitas, de forma direta ou indireta, pelo nosso voto, pelo voto do povo, ou, pelo menos, da maioria. A falta de comprometimento dessas autoridades públicas com a educação e cultura deixa implícito o recado que eles querem transmitir: “queremos o seu voto, mas não estamos nem aí pra vocês depois da eleição!”


         É isso! O povo só é importante na hora de votar. Depois, perde todo o seu valor. Onde estão os metros de terra mais caros da cidade? Na periferia? Não. No centro. Onde estão as residências mais caras da cidade? No centro. Onde estão as melhores pavimentações da cidade? No centro. Onde moram as famílias mais abastadas da cidade? No centro. Quem ocupa os cargos mais importantes e aquinhoados na administração pública? A classe média apontando pro alto, nunca pra classe média baixa. Ou seja, a elite domina quase que todas as administrações públicas do estado. Como iriam se preocupar com os que estão abaixo da linha demarcatória que coloca um abismo entre as classes sócias?


         Infelizmente, esse explícito desleixo com a educação pública não é algo considerado novo no Brasil, pois já vem acontecendo desde o período Imperial e continuou durante a República. Foi justamente na brecha deixada pela incompetência dos governantes, causando o fracasso escolar, que as primeiras escolas americanas particulares aportaram em nossas terras tropicais, trazendo o ensino pago pra ficar de vez.


         Notem que essa história não tem fim. Ou, pelo menos, não tem um fim feliz, porque a velha história se repete mais uma vez. E, neste caso, especificamente, no SOME, pois, como a 22ª URE de Xinguara, à qual o município de São Félix do Xingu estava vinculado à época, encontrava-se com grande falta de professores, os nossos caros heróis Abir e Emos foram mandados para lá. Sim, foram mandados porque não havia professores disponíveis, lotados naquele lugar. E o problema se agravava ainda mais quando os mesmos tinham residência fixa em Belém do Pará, e não no município onde realizavam suas atividades pedagógicas. O mais correto, para que essa deficiência de falta de educadores no ensino médio fosse sanada, era que selecionassem professores de municípios próximos, ou do próprio município, ou de Ourilândia do Norte, ou Rio Maria, já que haviam sido aprovados no Processo Seletivo – PSS organizado pela gerenciadora do SOME.


         Como entender tais situações? Não dá pra entender como isso acontece. Pelo menos, mostramos duas ou três maneiras de resolver o problema, mas ele continua martelando a cabeça dos gestores. É a burocracia, que se chama ignorância, que atravanca o progresso, já dizia o sábio personagem Odorico Paraguaçu, interpretado pelo grande ator Paulo Gracindo na novela “O Bem Amado”. Então, se é uma questão burocrática, que a equipe técnica resolva esses pepinos. Que a burocracia seja desburocratizada o mais rápido possível, porque o aprendizado de nossos conterrâneos não pode esperar mais.


         Retornemos para os nossos profissionais que estavam viajando pela primeira vez para uma localidade que fica bastante distante de suas residências – São Félix do Xingu – e, à medida que se distanciavam de Belém e se aproximavam de seu destino de trabalho, iam ficando visivelmente preocupados, já que receberam, antecipadamente, a triste notícia de que não havia nada na casa, nem gás para fazer sua alimentação, nem chá quente, nem café. De que adiantava ter um fogão se não tinha o botijão de gás? Era o mesmo que ter a caixa de fósforos e não ter o palito. Outra informação que os dois receberam, também nem um pouco animadora, era de que eles seriam responsáveis financeiramente por todos os gastos que poderiam ocorrer naquela localidade. Ou seja, estavam por conta deles.


       Atualmente, esta Vila não faz parte mais do SOME. Entre os motivos, podem ser enumerados os seguintes: a não assinatura do convênio como forma de respaldar e dar garantias aos professores, quando lá estivessem atuando, e, também, a falta de transporte escolar e merenda escolar. Essas questões suscitam preocupações serias por parte dos profissionais do SOME em todo o Estado do Pará, pois se vislumbra, a longo prazo, talvez, uma possível extinção gradativa desta política pública, em virtude dos inumeráveis problemas surgidos entre o estado e os representantes municipais, muitas vezes decorrentes de ideologias políticas, partidarismo, a não disponibilidade e até desvio de recursos financeiros para aplicação na área educativa e,  também, a má vontade de investimento que incentive o ensino público gratuito, uma vez que é muito comum nos depararmos com falas deletérias de atores (políticos, pessoas comuns ou influentes) que desconhecem quase que totalmente o seguimento educacional e sua importância para o desenvolvimento das sociedades no mundo.


         Durante o trajeto da viagem, na passagem por Xinguara, os nossos dois heróis - Abir e Emos – se dirigiram à escola-sede para entregar a carta de apresentação à coordenação do SOME regional. Os profissionais ficaram em Xinguara um par de horas à espera de outro ônibus que os levaria até a sede de São Felix do Xingu. E, de lá, pegariam outro transporte para a localidade de Vila Carapanã, onde iriam trabalhar. Oxe! Quanta mão de obra! Só quem viveu essas experiências, conhece as dificuldades e o raio x do processo educativo nos lugares mais distantes da capital, ou seja, conhecesse a educação por dentro, coisa que muita gente nem imagina, um rosto que muita gente nunca viu.


         Interessante dizer que, à medida que os dias passavam, o calendário escolar também foi sendo adaptado àquela rotina do lugar, que, pra quem trabalhava no SOME, bem como para quem trabalha ainda, para os novos professores e para aqueles jurássicos que ainda não pediram aposentadoria, tudo aquilo era considerado normal para localidades distantes dos grandes centros. Era uma questão de adaptação. Adaptar-se aos costumes da localidade, e não o contrário.


         Depois de três dias e meio viajando na poltrona pouco confortável de um ônibus, Abir e Emos, finalmente chegaram à vila Carapanã. Três dias e meio! Eles não estavam viajando pra fora do estado. Estavam viajando por terras dentro do Pará. Parodiando o escritor português Almeida Garret, eles estavam “viajando na nossa terra”. Ao desembarcarem do ônibus, imediatamente, procuraram saber onde ficava a casa dos professores. E o melhor lugar para perguntar era na escola local. Lá, foram informados que a casa dos professores era muito simples e humilde, sem quase nada de objetos, móveis, utensílios domésticos. Parece que estavam preparando o espírito dos dois para o que iriam encontrar pela frente. Quase nada era pouco. Como dizia o velho poetinha Vinícius de Moraes: “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela, não, porque na casa não tinha chão...”


        Com o recebimento da chave, pegaram suas mochilas de viagem, colocaram-nas nas costas e partiram para o local indicado pelo secretário da escola que os atendeu. Ao chegarem à residência, se sentiram profundamente humilhados diante da precariedade e desgaste da propriedade, onde ficariam dois meses para cumprimento do calendário, portanto, cinquenta dias letivos.


         O professor Abir, por ser mais questionador, solta uma indagação e, ao mesmo tempo, uma exclamação:

- Mano, nós vamos morar nessa casa?!

O professor Emos, logo responde:

- Sim, meu amigo! Que situação arrumaram pra nós. E o que tem aqui são apenas umas latas velhas na cozinha, essa mesa com três tamboretes e os armadores. Só. Tudo se resume nisso.

- Teremos que fazer uma limpeza geral – diz o professor Emos. – Aqui tem fezes de diversos bichos, principalmente, de morcegos. Com certeza, não fazem limpeza na casa há muito tempo.

- Parece mais uma casa abandonada. Se fizermos silêncio, conseguiremos ouvir até os murmúrios do Pluft, o fantasminha legal – respondeu Abir, com certa ironia.

- Outra coisa: os banhos terão que ser na escola – disse Emos.

- Que legal, terei de andar de toalha na rua. Era só o que faltava – ironizou o professor Abir.


         É importante fazermos um parêntese aqui, nessa parte do texto que fala da casa dos professores. Aqui cabe uma reflexão profunda, com direito a indagações e exclamações que requerem uma resposta das autoridades municipais e estaduais, no que concerne aos direitos dos professores de serem recebidos e tratados com dignidade num lugar que não é o seu berço de nascimento, mas é o seu local de trabalho, naquele momento. Não queremos aqui generalizar as experiências dos professores do SOME, em relação ao auxílio dos municípios, como sendo algo totalmente negativo. Não. Em muitos lugares, os professores foram tratados com dignidade, com respeito, com toda a ajuda necessária do município. Tanto, que trazemos desses lugares, muitas amizades e boas recordações. Mas, com certeza, muitos educadores, ao lerem esta crônica, se identificarão com os professores Abir e Emos. Suas histórias se cruzarão e, como num flash, as imagens das andanças, dos deslocamentos, dos percalços, das dificuldades antes, durante e depois da chegada ao lugar de trabalho, virão na mente. Então, as histórias se confundirão entre lágrimas de alegria e tristeza, porque somos um terreno fértil para a arqueologia cavar impressões do passado.


         Será que a prefeitura (gestor(a), secretário(a) de educação, assessores, diretor(a) da escola, etc.) não sabiam da chegada de professores em seu município? E que esses professores estavam  vindo de tão longe, que deixaram família pra traz, deixaram o conforto do lar, pra contribuir com o desenvolvimento intelectual, cultural, econômico e social do município? As autoridades municipais não sabiam que a casa que iria abrigar por dois longos meses esses dois educadores, estava totalmente deteriorada, e que não tinha condições de abrigar ninguém?  


         Ora, quando os dois chegaram lá, encontraram uma casa repleta de fezes de toda sorte de bichos e, principalmente, de morcegos, que fizeram daquele lugar abandonado o seu lar, doce lar. É inconcebível que a secretaria de educação municipal não tenha atentado pra isso; é inconcebível que não tenham mandado nenhum trabalhador de serviços gerais da prefeitura municipal, ou da própria secretaria de educação, para fazer uma limpeza geral na casa, lavar com água e sabão. Tudo tão simples.


         Será que não havia água no município? Será que não havia sabão em pó no comércio local? Será que a prefeitura estava tão ruim nas finanças que não podia comprar um pacote de sabão em pó e uma vassoura pra limpar a casa onde nossos colegas professores iriam ficar? Será que era exigir demais?


        Quanto dinheiro não é desviado nas prefeituras para negócios escusos? Para enriquecer gestores e seus associados com o mau uso do dinheiro público? Ah, só lembrando que os dois professores descontavam e ainda descontam impostos, pagavam e ainda pagam todo tipo de tributo inventado pelo poder público, portanto, têm direito de usufruir do bom uso desse dinheiro, dessa verba pública, que não é do gestor, não é do empreiteiro, não é do  empresário, não é do político. É do povo, do cidadão honesto que honra seus compromissos, que não deve nada ao Estado.


         Tudo isso me faz pensar que havia uma má vontade em atender os professores; que o gestor público não levava a educação a sério; que não havia compromisso em gastar verbas municipais pra atender alunos de escola pública, pessoas simples, humildes, do interior; faz-me pensar que eles estavam querendo deixar os serviços braçais para essa parte da população, e os serviços burocráticos, para os bem-nascidos.


         O professor é uma autoridade onde quer que ele esteja atuando. Ele é uma autoridade na área educacional, assim como o magistrado é uma autoridade em sua comarca de atuação. Pensem: será que iriam acomodar um juiz numa casa abandonada? Será que um juiz não tem as melhores acomodações possíveis na comarca da cidade onde atua como magistrado?


         E um médico? Quantos médicos há por município no Pará? Há falta ou abundância de médicos para atender a população? Os médicos recém-formados há muito que vêm sendo assediados pelas prefeituras municipais, para trabalharem no interior do estado. E sabem por quê? Os recém-formados, por não terem experiência, eram contratados, ainda em fins da década de 1990, por pelo menos quinze mil reais. E ainda exigiam casa, alimentação, empregada, combustível para o carro, ou passagem paga pela prefeitura. E ainda assim, era um bom negócio para o gestor municipal, porque os médicos experientes, dificilmente, se disponibilizavam a sair de Belém para trabalhar no interior. Achavam que isso era um retrocesso por se acharem isolados do centro intelectual das ciências, dos estudos científicos. Mas quando aceitavam ir trabalhar no interior, exigiam o olho da cara.


         E, assim, a lista de privilegiados que saem de suas casernas para trabalhar no interior do estado vai se estendendo: promotores, engenheiros, delegados, etc. Mas o professor não tem esse direito de exigir qualquer tipo de conforto; não tem o direito de dormir numa cama macia; não tem direito de ter um sono reparador após um dia de trabalho desgastante que requer estudo dos assuntos a serem dados em sala de aula, pesquisa, elaboração de aulas, elaboração de provas, correção de provas, atividades culturais, atividades extraclasse; muitas vezes, tem que fazer o papel de psicólogo, de médico, enfermeiro, socorrista, segurança, pai e amigo do aluno.


         Parece pouca coisa? Não? Então, por que não tratam o professor como uma autoridade que merece respeito das autoridades públicas? Por que tentam difamá-lo, desacreditá-lo perante a opinião pública, como se não tivesse importância nenhuma? Ah, sim, agora entendi. É porque o professor é um perigo para os maus gestores, para os que querem se aproveitar da aparente ingenuidade do povo. Esse tipo de gente não quer ver luzes iluminando a mente da população pobre, clareando suas ideias, fazendo com que eles passem a questionar os seus representantes e a exigir os seus direitos.


         É, o professor não é representante das classes abastadas; ele é representante das classes necessitadas; ele ainda é a resistência viva no meio de uma sociedade degenerada com seus podres poderes.


         E, assim, nossos heróis do Sistema Modular vão dando um jeito daqui e dali, aquele jeitinho brasileiro, porque o brasileiro nunca desiste, a fim de sobreviverem nas andanças pelos rincões do Estado do Pará, já que a própria secretaria de educação do estado, ao invés de apoiar seus servidores, exigindo cumprimento de acordos ou parcerias com as instituições municipais, muitas vezes, ao se calar, torna-se cúmplice de seus delitos, deixando o professor, longe de casa, desprotegido e sem voz para protestar.


         Ah, que miserável politicagem partidária que faz o certo virar errado! Que faz a mentira virar senso comum. O que diria Castro Alves hoje, sabendo que a luta, agora, não é apenas pela libertação e dignidade da raça negra, mas por todos aqueles que sentem, no dia a dia, as chibatadas da classe senhorial. E eu me uno às palavras dramáticas deste poeta d’O Navio Negreiro:


Ah, “Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade

Tanto horror perante os céus...

Ó mar! Por que não apagas

Co’a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?...

Astros! Noites! Tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!...”


“Somos todos iguais, braços dados ou não!” O que diria Geraldo Vandré hoje?


         Somos todos iguais no dia a dia, nas oportunidades, na competitividade, nas alegrias, nas tristezas, na luta pela sobrevivência? Ou essa referência existe apenas no papel da Carta Magna lida apenas em belos discursos patrióticos?


         Mas eu acredito ainda que as flores vencerão o canhão. Por que flor é símbolo de beleza, de pureza, de paz. A flor é a própria materialização do Amor. E o amor nunca há de render-se ao ódio.


         Aqueles dois professores – o Abir e o Emos – ainda estão por aí, vivendo as suas aventuras, as suas descobertas, tentando entender as contradições da mente humana, as suas incoerências e imperfeições. Mesmo não sendo os heróis preferidos por essa sociedade caótica; mesmo não sendo reconhecidos e sendo tratados quase como figuras invisíveis, eles ainda continuam representando o que de melhor há no ser humano; eles continuam incomodando o incomodado.


         Esses dois professores sou eu e é você. Somos nós.

 

        *** Os autores são escritores e ex-professores do Sistema de Organização Modular de Ensino - SOME, que no dia 15 passado, completou 43 anos de existência e resistência. 

sexta-feira, 14 de abril de 2023

43 anos do Sistema de Organização Modular de Ensino - SOME

 

Retrato vivo e depoimento de uma mãe  e professora do Sistema Modular de Ensino, veja o que a professora Nelma  Mary Sousa, diz:



- Oi Eduardo, hoje quero lhe contar uma história. Há dez anos, desde que você nasceu, eu tenho deixado você sem a minha presença física, pelo motivo que preciso trabalhar. Lhe confesso que não é fácil e nunca será, pois deixo um pedaço de mim, e o pedaço mais importante, meu coração. Você sabe que a mamãe tem sonhos para você e que através do meu trabalho nós vamos realizar juntos. Sei, eu sei que você talvez já esteja acostumado com minhas idas e vindas, mas sei também da minha falta e que jamais vamos recuperar, pois o tempo está passando muito rápido. Eu escolhi ser professora e nessa minha escolha quero te dizer que eu ganhei muitos filhos, que você nem conhece, mas que eu os quero muito bem. É com eles que eu passo a semana toda, ensinado-os não só a biologia ou a química mas a serem cidadãos de bem, assim como eu faço com você. O Sistema Modular que a mamãe trabalha me trouxe inúmeras recompensas por passar dias longe de você, como os amigos que encontrei nesses anos e os filhos que ganhei. Me perdoa filho por não dormir todos os dias com você, por deixar de fazer a tarefa da escola com você, por não estar presente em momentos importantes da sua infância, mas me perdoa por eu amar tanto a minha profissão e por defender tanto o Sistema Modular de Ensino ao ponto de me ausentar (temporariamente) do seu crescimento. Saiba filho, que se eu pudesse carregaria você comigo como fiz durante nove meses só para ter o prazer de lhe ver crescer mais de perto. Saiba também que o trabalho me traz independência e liberdade, um direito que nós mulheres conquistamos com muita luta. Pois bem meu filho, quero que saiba que não é fácil mesmo mas que a "mãe professora" fica muito feliz quando pode lhe proporcionar momentos de felicidade mesmo sendo apenas com a minha presença em casa. Te amo meu amor...no fim de semana a mamãe estará com você....



Relato interessante e marcante. 

ALEPA e os 43 anos do SOME




Homenagead@s pelos 43 anos do SOME


Ontem, foi realizada a pedido do Deputado Estadual, do Partido dos Trabalhadores - PT, Dirceu Ten Caten, que é vice-presidente da Comissão da Educação da ALEPA, a Sessão Solene pela passagem dos 43 anos do Sistema de Organização Modular de Ensino - SOME, política pública  da Secretaria Estadual de Educação - SEDUC/PA, que atende os filhos dos quilombolas, indígenas, ribeirinhos, assentados e camponeses neste imenso Estado, com dimensão continental, em 88 municípios, 507 localidades, 20 UREs, 1.063 professores, sendo 767 efetivos, 288 temporarios e 8 não estáveis, 30 comunidades quilombolas e 52 indígenas, com aproximadamente 30.000 alunos e alunas. 


Idealizador do SOME com profs. 


A Sessão Solene aos profissionais do SOME inicou com abertura do cerimonial da ALEPA que entregou a coordenação para o Deputado que solicitou a Sessão. Fazendo abertura do evento, o referido Deputado chamou para a primeira intervenção, o professor Manoel Viégas Campebell Moutinho, idealizador do SOME, que durante o surgimento do SOME se encontrava na função de Superintendente Geral da Fundação Educacional do Pará - FEEP que enfatizou o processo histórico da criação em que no primeiro momento torna-se um projeto de educação pública, sendo nos dois primeiros anos um projeto experimental e em 29 de abril de 2014, após reivindicações da categoria de educadores e educadoras, passa a ser uma política pública de educação, através da Lei 7.806, que dispôe sobre a regulamentação e funcionamento do SOME.  


Selma, Iris, Marina, Fátima e Sérgio



Após a fala do Professor Moutinho, o professor Alberto Andrade, secretário de comunicação do Sindicato dos Trabalhadores em Educaação Pública do Estado do Pará - SINTEPP foi solicitado para iniciar sua fala, onde abordou a situação do ensino médio no Estado do Pará e agradeceu pela Sessão ao Deputado Dirceu.


Idealizador do SOME recebe certificado



Profa. Marina de Sousa Costa

Para fechar a Sessão Solene, a professora Marina de Sousa Costa, autora da dissertação Processos de Ressignificação Docente na Educação Básica: experiências sócio-educacionais vivenciadas no ensino modular do Pará, pela Universidade de Évora, 2010, em Portugal e uma das Organizadoras da Coleção Educação na Amazônia em Repertório de Saberes: O Sistema de Organização Modular de Ensino, volume I e  volume II   é convidada como representrante dos homenageados e homenageadas iniciando sua intervenção agradencendo a iniciativa pela criação do Dia dos Profissionais do SOME, pela Sessão Solene e enfatizou a situação do SOME de modo geral, em especial, aos professores que vivenciam esta política pública, principalmente, nos seus deslocamentos e o não reconhecimento pelo poder público por estes profissionais, que por sinal, em muitas localidades são os únicos representantes do Estado. Abordou da importância dos registros através dos livros, artigos, dissertações, teses, monografias e TCCs que ficarão para o futuro, como único projeto genuinamente paraense que desde seu surgimento, serve de modelo para diversos municípios, Estados e países.  


Os Gigantes do Norte


O Deputado Dirceu Ten Caten encerra a Sessão Solene agradecendo a presença de todos.,


Blogueiro e professores




Representante do Prof. Cosmo Cabral



Representante da Profa. Ester Silva



Profa. Ana, ex-coordenadora do SOME




Representante do Prof. Nery



Profa. Selma, ex-aluna e profa.





Ex-aluna e Profa. Iris




Prof. Gilberto recebe seu certificado




Prof. Ribamar recebe o Certificado



Prof. Sérgio Bandeira




Profa.Marina Costa, Beto, Dirceu e Moutinho




Mônica, representando o Iraldo(In memorian)


Profas. Iris e Selma, ex-alunas e prof.



Profs.Sérgio, Ana Conceição, Iris, Selma e Ribamar



O Blogueiro e sua companheira


O Blogueiro e o representante do prof. Nery



Profs. Coords. do SOME comemorando a Sessão Solene


sexta-feira, 31 de março de 2023

Processos de Ressignificação Docente na Educação Básica: Experiências Sócio Educacionais Vivenciadas no Ensino Modular do Pará

 


Ma. Marina de Sousa Costa


       Este trabalho representa um mergulho nas experiências vivenciadas pelos professores do projeto SOME, no sentido     de intercambiar experiências socioeducativas materializadas na profissão docente. Trata-se de um estudo de caso, de   natureza qualitativa, privilegiando o enfoque narrativo-interpretativo, amparado no aprofundamento da compreensão das histórias de vida de professores. Aborda aspectos metodológicos e epistemológicos constituintes dos saberes dos professores, com ênfase nos saberes da experiência, que os fortalece no desenvolvimento de práticas pedagógicas itinerantes pela complexa territorialidade da Amazônia paraense; argumenta os fazeres dos professores nos múltiplos cenários educacionais amazônicos; evoca sentido e significado para as narrativas como ferramenta de pesquisa na Educação; discute a educação sob a ótica dos conflitos         e contradições imersos na dinâmica social. Sinaliza que as razões pedagógicas dos professores que os sustenta no           projeto modular articula-se com uma variedade de experiências pessoais e profissionais, que redimensionam o tempo todo, suas bases de conhecimentos, saberes e práticas.



http://hdl.handle.net/10174/11849

Repositório Universidade de Évora

segunda-feira, 27 de março de 2023

Assombrações ribeirinhas vividas pelos professores do SOME da equipe: Emos e Abir Arievilo

 

      

           *Flávio Filho

           **Ribamar Oliveira

 

      Os dois professores lotados no Sistema de Organização Modular de Ensino – SOME, política pública desde 2014, após muita luta da categoria dos professores pelo reconhecimento do projeto de educação pública, que surgiu em 1980 para implementação do 2º grau nos rincões do Estado do Pará, até então.  Emos e Abir Arievilo, professores já lotados no sistema modular, receberam as suas cartas de apresentações para a região das ilhas tocantinas, onde desenvolveriam suas práticas pedagógicas, numa determinada ilha, onde a casa dos professores ficava ligada diretamente à escola de funcionamento desta importante política pública, a qual tem ampliado o desenvolvimento intelectual da sociedade paraense. Os alunos e alunas chegavam em rabetas e cascos a remo, já que a região era essencialmente ribeirinha e quando terminavam as aulas, pegavam os transportes e se deslocavam para suas residências, ficando só os professores na casa de moradia, e a escola, que pertencia ao município, não tinha vigia e nem sequer energia, já que as turmas só funcionavam no turno da tarde.


       Os dois professores possuíam características físicas bem diferentes , sendo que o Emos era de cor negra, baixo, mas de cabelo liso, uma espécie de mistura de negro com povos originários; enquanto o professor Abir era de pele clara, olhos azuis, com estatura mediana e que sempre estava de sapatos esportivos, o que lhe davam um corpo atlético.  Esse professor era sempre muito ativo em suas atividades e práticas esportivas. Portanto, ambos eram completamente diferentes fisicamente, repito. Apesar disso, o Emos era muito mais corajoso do que o  Abir.


       Em uma das noites, os dois ficaram em claro, conversando até bem tarde, de repente   terminou o querosene da lamparina da sala da casa dos professores, e eles não possuíam  nenhum outro instrumento de luminosidade que pudesse lhes ajudar naquela escuridão intensa para se situarem dentro do recinto ,  já que os dois estavam com redes atadas atravessadas entre a sala e o corredor da casa. Nesta noite, após longas conversas, e após se situarem dentro da escuridão que se formou com a ausência da parca luz de lamparina e encontrarem suas respectivas redes, dormiram tarde, depois da meia noite. Dormiam profundamente e roncavam muito alto, já que tinham cozinhado e se alimentado, no início da noite, de carne de jacaré guisado com feijão preto, tudo feito no fogo a lenha, portanto, estavam bastante “cheios”, como falam os ribeirinhos da região.


       Em determinado momento da madrugada, um deles, o Emos, se levanta para urinar, já que estava bastante fria a noite, mesmo sonolento, abre a porta da sala para fazer suas necessidade fora da casa, se retira um pouquinho a mais da casa para se sentir mais à vontade,  e quando olhou para o rio,  viu um barco brilhando com pessoas todas brancas olhando para ele, porém, percebeu que a embarcação de dois andares não fazia barulho e que estava caminhando para o trapiche da escola, foi quando deu uma corrida para casa,  não conseguindo concluir  o seu intento. Fecha a porta da casa e chama o amigo que roncava loucamente e começa a brechar pela janela o que estava acontecendo lá fora. O amigo acorda neste momento, querendo saber o que estava acontecendo o amigo manda ele ficar quieto e é obedecido. A embarcação encosta próximo da escola, segundo o olhar de quem estava brechando, mas não encosta no trapiche, jogam uma tábua bem grande da embarcação para a terra e as pessoas começam a travessar indo direto para o terreiro na frente da escola, todos brancos e com roupas brancas, inclusive os sapatos. O professor que estava olhando aquela marmota, não estava entendendo nada, do lado de fora fizeram um grande círculo e começaram a dançar, depois de mais de uma hora.  Nesse momento, o dito professor percebeu que uma luz desceu do céu e que pessoas muitas parecidas e com as mesmas vestimentas das que tinham saido da embarcação desciam de uma nave redonda com uma luz muito forte, e o interessante é que focavam para a janela onde ele estava e pareciam conversar entre eles, mas ficavam fazendo aqueles rituais dançantes sem entrarem ou mexerem na casa. Foi quando o outro professor resolveu levantar pra ver o que estava acontecendo, justamente quando os seres brancos e estranhos foram embora, uns saíram para a embarcação e outros para a nave clareada de luzes coloridas. O segundo professor,  quando tentou olhar, não chegou a ver mais nada,  e ficou sem entender e acreditar no colega, e ainda  ficou gozando da cara do colega, dizendo o seguinte: - Rapa, estás é ficando doido! Abriu a porta da sala normalmente e saiu pra fora para fazer sua necessidade fisiológica e o outro ficou sem nada entender.  


      Emos e Abir voltaram para casa, fecharam a porta da casa, se deitaram e Emos ficou pensativo no que tinha visto durante aquela noite; enquanto, Abir pegava no sono pesado e rapidamente, já Emos custou a dormir, pois ficara incrédulo diante do que tinha visto, ou sonhado, ou imaginado, sabe-se lá o que, e só ao amanhecer é que conseguiu cochilar, mesmo assim, preocupado com o ocorrido. De uma coisa ele tinha certeza, teria presenciado essa estranha visão em plenas águas tocantinas, nas quais reinam o “boto branco”, conhecido por ser femero e emprenhador de moça virgem, e também da “cobra grande”, que vira embarcações, aterrorizando os pescadores e navegantes, e de onde já apareceram esses seres brancos e fazendo um estranho ritual em pleno terreiro da escola? Mistério da nossa vida Moduleira!!!!!

              

*Professor do Sistema de Organização Modular de Ensino - SOME (SEDUC/PA) e **Editor deste Blog. 


sábado, 11 de março de 2023

VILA NOVA: A PRIMEIRA EXPERIÊNCIA DE EMOS E ABIR ARIEVILO

 

   

                  

       O período de janeiro, fevereiro e março, e parte de abril são os meses mais complicados e chuvosos para os professores que atuam no Sistema de Organização Modular de Ensino – SOME, política pública que funciona nos interiores do Estado do Pará atendendo os alunos e alunas do ensino médio onde não tem o ensino regular. É importante dizer que esta política pública, no próximo dia 15 de abri do ano corrente, completará 43 anos de atividades pedagógicas, contribuindo na formação intelectual da juventude, sendo que, atualmente, apenas o município de Abaetetuba possui o ensino fundamental/médio, e nas demais localidades – quase quinhentas – funciona apenas o ensino médio. Abaetetuba também é um dos municípios que tem mais professores. 

 

        Segundo os profissionais de educação que atuam no Sistema Modular, e que defendem esta forma de política pública de educação como algo fundamental para o desenvolvimento social destas comunidades, bem como para o crescimento profissional e melhoria de vida dos atores envolvidos, duas localidades, recentemente, deixaram de ser atendidas pelas equipes de professores do SOME, sendo elas, Ajuaí, em Abaetetuba, e a localidade de Forquilha, no município de Tomé Açu. 

 

       Os professores Abir e Emos foram lotados no SOME, na década de 1990 e, como bem sabemos, os quatro primeiros meses do ano são períodos chuvosos, com enxurradas, quase que diariamente, varrendo as ruas, as estradas, entrando pelos esgotos entupidos, causando alagamentos e dificuldades de acesso em várias partes de regiões do Pará, prejudicando a comunicação terrestre e inviabilizando, muitas vezes, o direito de ir e vir. Tudo isso, como consequência das fortes chuvas. 

 

       E foi justamente durante um dos módulos, quando os dois foram enviados para fazer reposição de aula na localidade de Vila Nova, no município de Tomé Açu, que puderam ver com os próprios olhos e sentir na própria pele as dificuldades que essa gente do interior é obrigada a passar e suportar, porque não existe outro caminho, não há para onde ir, nem como recomeçar tudo do zero. 

 

       Os dois professores, novatos que eram, logo na primeira experiência sentiram na pele a difícil realidade de uma das regiões que mais sofriam durante o período das chuvas. Os olhares fotografavam estradas e ramais esburacados, e, com isso, algumas áreas se tornavam perigosas por falta de segurança, pois, como as estradas esburacadas não permitiam que se aumentasse a velocidade do carro ou do ônibus, tendo que frear a todo tempo, desviando, em ziguezague, de buracos, para não quebrar o carro, o ônibus ou o caminhão, os assaltos acabavam acontecendo com frequência, uma vez que o momento era propício. Toda essa demora, esses problemas na estrada, faziam com que uma viagem, que deveria ser de três horas e meia, aprazível, às vezes, durava até sete horas durante este período de chuva, e se tornavam cansativas. 

 

       Por conta de todos esses transtornos, os professores evitavam vir para casa nos finais de semana. Uma das razões era a distância, que contava um percurso de, aproximadamente, 280 quilômetros; outra razão, eram as péssimas condições das estradas. 

 

       Os professores estavam viajando em ônibus da linha Boa Esperança, mesmo assim não se sentiam seguros, pois a região abrigava muitos imigrantes vindos de outros Estados da União para tentar ganhar a vida ou dinheiro, já que, em sua terra natal, não tiveram muitas oportunidades. O que se sabe mesmo, é que muita gente foi embalada pelo sonho de vir para o Pará e fazer fortuna, ou, pelo menos, prosperar financeiramente, quer na garimpagem, quer na pecuária ou na agricultura, já que as terras paraenses dispunham de solo propício para a plantação, pelo menos em algumas áreas. E, assim, com esse sonho na mente, famílias inteiras mudaram-se de mala e cuia para o interior do Pará, compraram terras, pequenas propriedades, e foram de sol a sol, de enxada em enxada, de chuva em chuva, construindo seus sonhos de tijolo em tijolo. Como enfatiza a teoria da seleção natural de Charles Darwin, alguns conseguiram crescer financeiramente e, por consequência, socialmente, mas outros passaram a trabalhar nos estabelecimentos comerciais do município, outros voltaram para suas regiões de origem, e outros até morreram devido as doenças. 

 

       Na saudosa década de 90, os professores sofreram nas estradas em tempos de chuva. Viajar de ônibus ou mesmo de carro particular durante a estação de inverno era, sem dúvida, naquele momento, o pior meio de transporte para se chegar a qualquer município. As estradas não eram asfaltadas, apenas aterradas a pau-a-pique, como chamavam em alguns municípios. Os gestores municipais não tinham interesse na trafegabilidade das estradas e ramais, já que as despesas saiam do setor financeiro das prefeituras e, assim, elas permaneciam ano após ano. 

 

       Retornemos aos dois professores novatos que foram à Vila Nova formando a primeira equipe de trabalho, e que continuariam trabalhando juntos por muito tempo ainda. Os dois eram considerados trecheiros, ou seja, eram acostumados aos trechos e às adversidades da vida, pois já haviam passado por muitos perrengues quando em viagem. Tanto um como o outro entraram para o quadro de professores do SOME como prestadores de serviço temporário, assinando um contrato com a Secretaria Estadual de Educação – SEDUC/PA, órgão responsável diretamente pelo gerenciamento do projeto na época, com a coordenação do SOME funcionando dentro da instituição, de onde se fiscalizava, orientava e gerenciava todos os professores e municípios onde o SOME atuava. 

 

       Ambos, Abir Arievilo e Emos, residiam em Belém do Pará, capital do Estado, a cidadezinha das mangueiras, das castanheiras, da chuva das três horas da tarde, a moreninha, como muitos diziam. E residiam às proximidades da SEDUC, cuja sede fica, ainda hoje, na Avenida Augusto Montenegro. Naquele tempo, quando alguém entrava para ser professor do SOME que, na época, ainda era um projeto, tinha que passar por um treinamento oferecido pela coordenação geral. Foi lá, nessa dita semana de treinamento, participando de atividades pedagógicas, que os dois professores se conheceram, se entrosaram e logo ficaram amigos, como se conhecessem há muito tempo. 

 

       Durante esta semana de formação, ficavam imaginando como seria trabalhar juntos, desenvolvendo atividades pedagógicas que poderiam ir além da sala de aula. As experiências que obtiveram em alguns interiores, prestando serviços em algumas prefeituras, não ficaram inertes no passado, mas carregavam essa bagagem também para suas práticas educativas, pois sabiam que seriam úteis. 

 

       Finalmente, o período de formação chegou ao fim e foi marcado o dia de viagem. A expectativa era grande, por parte dos dois, quando se dirigiram à coordenação para receberem as cópias da carta de apresentação, que seriam entregues à coordenação do SOME na localidade e à direção da escola aonde iriam trabalhar, quando chegassem ao município de destino. Desde o convênio estabelecido entre Prefeitura e Estado, bem como os horários das aulas, estavam bem organizados e estruturados, conforme suas cargas horárias e distribuição delas nos dias letivos, de segunda à sexta-feira, para cumprimento na localidade. Enfim, tudo feito conforme mandava o figurino e a formalidade. 

 

       No dia da viagem, em Belém fazia, como sempre, aquele calorzão de fazer escorrer o suor pelo corpo, deixando partes da camisa molhada, principalmente nas regiões das axilas. Nesse dia, os dois combinaram de irem juntos, no mesmo táxi, para o Terminal Rodoviário, pois eles moravam próximos um do outro. E, por outro lado, traria economia para o bolso, uma vez que dividiriam a corrida. Alguns minutos se passaram de casa até o Terminal de São Brás. Os dois iam animados, ansiosos para chegarem ao destino final, pois tinham muitas expectativas. 

 

       No Terminal, havia um movimento rotineiro de pessoas que iam e vinham; vendedores, na área externa da entrada, gritavam pra chamar a atenção das pessoas, oferecendo suas mercadorias; táxis e carros particulares estacionavam, a todo momento, à frente do Terminal, onde pessoas desciam dos carros com bagagens e caixas com mercadorias. Juntando-se a isso, o barulho infernal das buzinas e o ronco dos motores de carros que se misturavam com o dos ônibus da linha. Era um corre-corre, gente falando para todo lado.  

 

       Depois de colocarem as bagagens maiores no porta-malas do ônibus, entraram, finalmente, sentaram, cada um na sua poltrona, e deram um profundo assovio de alívio. Finalmente, estavam descansando e em silêncio, pois as janelas e as portas do ônibus estavam fechadas. Alguns minutos se passaram, até que o motorista deu a partida no motor, saindo do Terminal lentamente, passando pela Avenida Almirante Barroso, alcançando, em Ananindeua, a BR 316, e, daí em diante, o motorista acelerou, cuspindo aquela conhecida fumaça preta, indo em direção à Vila Nova, no município de Tomé Açu. 

 

           Uma chuva torrencial já se formava. 

 

       Eles sabiam o que vinha pela frente: uma verdadeira maratona de chão para percorrer até chegar ao destino. Era ainda cedo quando saíram de Belém, pela manhã. Viajaram o dia inteiro, olhando as paisagens que passavam velozes por eles. Eram paisagens distorcidas, pois os espelhos das janelas estavam turvos com as águas da chuva. Quando cansavam, tiravam um cochilo, porque não conseguiam dormir direito com os sacolejos do ônibus. No final da tarde, quando o sol já se preparava pro seu cochilo diário e uma pontinha de sombra já começava a cobrir as clareiras, a copa das árvores, o horizonte, eles finalmente chegaram a Vila Nova. 

 

       O professor Emos conversava pouco, mas dormia mais que Abir. Porém, Abir, andava sempre com seu rádio portátil e o fone de ouvido para tentar se distrair durante o percurso, ouvindo o programa A Voz do Brasil, da Rádio Nacional, já que considerava este programa o melhor meio de veiculação de informações que o país possuía, uma vez que alcançava todo o território nacional. 

 

       Era a hora e a vez do rádio. Todo mundo tinha um em casa: na cozinha, no quarto ou na sala, e era comum ficar escutando o radinho na porta da casa, principalmente em dia de jogo do Remo e Payssandu. Estava na moda. 

 

       Como já foi dito, as chuvas eram torrenciais e acompanharam os professores durante toda a caminhada. Essas chuvas causaram alguns deslizamentos de terras nas encostas das estradas e ramais. Isso gerava uma sensação de pavor, não somente nos professores Abir e Emos, mas nos passageiros de modo geral. Gritos abafados eram ouvidos por todo o interior do ônibus. Em certo momento o motorista deu uma freada, olhou pra trás e disse: 

 

       - Calma, pessoal! Eu estou acostumado a andar por aqui. Faço isso toda semana. Vou e volto. Não se preocupem que o ônibus não vai atolar nem cair no barranco. Eu conheço o trecho. 

 

       Como se pode ver, os dois professores chegaram seguros. Desceram do ônibus com as bagagens nas mãos. Olharam o entorno de onde estavam, e procuraram se informar onde ficava a casa dos professores. 

 

       O dia estava terminando, a noite começava, e eles só queriam chegar à casa, tomar um banho e se jogar na cama até o outro dia. 

 

       São assim as histórias desses heróis do SOME. Professor Abir Arievilo e professor Emos, uma equipe parceira de modulindos e de andarilhos, formada por dois educadores recém-contratados. E qual era a missão? Expandir o conhecimento do ensino-aprendizagem, atravessando pontes, rios e igarapés. Sim, ensino é ação; aprender é ação, e a educação, essa senhora educação, a gente encontra nos lugares mais improváveis, pois é ali que ela está, porque o objetivo é mudar a pessoa, transformá-la em alguém útil à sociedade, à família e a si mesmo. 

 

        Experiências ímpares que só quem vivência sabe o que representa. Os gestores? Ah, os gestores não conhecem um quinto da terra que pisam; não conhecem a diversidade cultural que as várias regiões apresentam e preservam. Mais o professor do SOME conhece cada palmo dessas vicinais, dessas vilas, comunidades, desses rios, igarapés, dessas estradas esburacadas no inverno e poeirentas no verão. Os gestores do Estado não conhecem a sua gente; o professor, sim, conhece a sua gente e o seu chão.

 

       E, mais uma vez, o ônibus da Boa Esperança fechou as suas portas, ligou o seu motor e partiu dali, jogando fumaça preta no ar, sem olhar para traz. 

 

*Os autores são escritores e ex-professores do Sistema de Organização Modular de Ensino - SOME.