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terça-feira, 7 de janeiro de 2025

ATO SIMBÓLICO EM MEMÓRIA DO LÍDER GATILHEIRO QUINTINO DA SILVA LIRA, AOS 40 ANOS DO SEU ASSASSINATO





No dia 04 de janeiro, próximo passado, completaram-se 40 anos do assassinato de QUINTINO DA SILVA LIRA, comandante da resistência armada do chamado Conflito da CIDAPAR, cuja memória foi relembrada por Francisco Vasques (Chico Barbudo), Antônio Rodrigues e Ana Selma, membros da diretoria da Associação de Colonos Atingidos pela Repressão Privada e Estatal da Gleba Cidapar - PROREPARAÇÃO, e pela direção do Movimento Camponês Popular, Denilson, Diva e Lorena, em ato simbólico em seu túmulo no Cemitério de São José do Piriá, município de Viseu.


O conflito da Gleba CIDAPAR tem uma longa história, porque a região entre os rios Piriá e Gurupi, no nordeste do Pará, era ocupada por posseiros, garimpeiros, quilombolas e indígenas do povo Tembé Tenetehara – todos ameaçados de expulsão pela empresa JOAQUIM OLIVEIRA S.A. PARTICIPAÇÕES (JOSAPAR), muito conhecida nacionalmente pelo seu produto “Arroz Tião João” e regionalmente pela sua violência contra os colonos através de sua milicia armada, sediada em sua subsidiária PROPARÁ, comandada por James Vita Lopes (mais tarde condenado por participação no assassinato do deputado estadual Paulo Fontelles).


Os colonos da Gleba Cidapar somavam mais de 10 mil famílias, organizados em dezenas de vilas e localidades, além de suas respectivas posses e resistiram à expulsão de suas terras, fazendo um amplo movimento pacífico de massas que, em várias oportunidades demandaram junto aos governos estadual e federal. Os grileiros liderados pela JOSAPAR responderam com a violência de sua milicia privada, quase sempre com apoio policial, e passaram a assassinar lideranças locais, como aconteceu em 08 de janeiro de 1981 com o assassinato de Sebastião Mearim. Sem proteção do Estado, as comunidades se organizaram em grupos de autodefesa, para proteger seus bens e familiares. Sem, contudo, jamais abandonar a luta política e sindical em defesa dos seus interesses, sendo exemplo a marcha sobre Belém de cerca de 1.500 colonos, em setembro de 1983, onde falaram diretamente ao governador Jader Barbalho; que mais uma vez prometeu retirar os jagunços e resolver o conflito fundiário. Sem resultado. 


Diante da inoperância política do governo do estado, e da omissão das polícias estaduais, e até mesmo sua atuação conjunta com a milicia privada e pistoleiros, as comunidades resolveram criar um corpo de defesa armada. Para isto reuniu o grupo comandado por Abel o qual se somou ao grupo do Quintino, antigo posseiro da gleba Cidapar que tinha migrado para a Fazenda Cambará, entre o rio Piriá e o rio Guamá, onde liderou os posseiros diante da violência armada dos pretensos donos – que passaram a prover de segurança os posseiros, garimpeiros e colonos, tanto entre os rios Piriá e Gurupi, como entre os rios Piriá e Guamá, a chamado das lideranças comunitárias.


A guerra foi dura e violenta, com clara vantagem para os “gatilheiros”, como se autodefiniam os combatentes, que literalmente derrotou a milicia privada da JOSAPAR e outros fazendeiros e seus pistoleiros, em meados de 1984. Diante do crescimento político do movimento de resistência política e militar, e a ditadura militar passou a dar apoio logístico e orientar a Polícia Militar nas táticas antiguerrilha que tinha tido sucesso no combate à Guerrilha do Araguaia: ocupação de vilas, torturas, ACISO, implantação de olheiros e uso de guias locais, e não menos importante, a liquidação seletiva dos gatilheiros. 


O último combate da resistência armada ocorreu no Natal de 1984, quando a tropa de militares e pistoleiros foi emboscada, sofrendo baixas. Contudo, a PM mobilizou novas tropas e cercou os gatilheiros no sítio de Maximiano, onde mataram Antônia (companheira do Quintino) e Enock, e obrigaram a dispersão dos demais; tendo Quintino optado por se refugiar em Vila Nova, como já fizera em outras oportunidades. 


Com apoio de guia local, que traiu os gatilheiros, a PM chegou à casa do colono Florzinho, onde se refugiara Quintino. A PM cercou o local e Quintino tentou furar o cerco fugindo pelo quintal, onde foi alvejado.


Em 2023, o Ministério Público Federal abriu um Inquérito Civil para apurar os possíveis crimes dos quais é acusada a JOSAPAR, fruto da investigação do grupo de pesquisa da Comissão Camponesa da Verdade, apoiado pelo MPF e CAAF/UNIFESP. 


Já em 2024, a CONTAG, a FETRAGRI-PA e a PROREPARAÇÃO apresentaram requerimento de Anistia Coletiva à Comissão de Anistia do Ministério de Direitos Humanos e Cidadania, do qual aguardam julgamento. 


40 anos depois, Chico Barbudo reafirma sua avaliação de que o movimento foi vitorioso na sua principal bandeira: a garantia da terra para os seus ocupantes e, agora, o reconhecimento da natureza política do movimento, responsabilização empresarial pelos crimes cometidos, bem como reparação moral e material [Pela nota: Gilney Viana / Halyme Antunes].


* Figura 1 Quintino quando da sua primeira entrevista ao jornalista Paulo Roberto Ferreira. Foto de Raimundo Dias

* Figura 2 Da esquerda para a direita: Denilson, Diva, Antônio Rodrigues, Chico Barbudo, Ana Selma e Lorena.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Memórias Vivas das Práticas Educativas pelo SOME

 



           Lembranças vivas ainda guardo como fosse hoje nas práticas educativas desenvolvidas através do recurso metodológico importante para as ciências humanas como a história oral. A utilização deste mecanismo, foi possível enfatizar e executar um dos projetos de resgates das memórias e histórias tendo como base as falas dos moradores do município de Cachoeira de Piriá. Este foi desmembrado do município de Viseu, que em virtude da predominância da prática das atividades minerais, chamava-se Cachoeira do Garimpo. Foi criado em 28 de dezembro de 1995, através da Lei número 5.927, sendo o município sede. Segundo o Censo do IBGE, a população atual é de 19.630 habitantes.


       Após a apresentação no primeiro dia e algumas atividades lúdicas para conhecer melhor e mais a turma,  como educador do Sistema de Organização Modular de Ensino – SOME para uma turma do primeiro ano, de reposição, expliquei a proposta de trabalhar com a história oral e sua importância para o conhecimento; assim como, a introdução dos primeiros passos para a pesquisa paralela ao conteúdo que seria desenvolvido na sala de aula solicitado pela Secretaria Estadual de Educação – SEDUC.


         Expliquei que iniciaria com três textos básicos que abordavam o que é a história oral e suas características, com eles ficariam mais claro para entender como iria ser o trabalho que iriam executar. Com isso, lancei a proposta a turma formada com 38 alunos e alunas, gostaram e aceitaram que faríamos uma educação diferente e produtiva buscando escrever a história de suas famílias e assim íamos juntar as entrevistas para a construção da história do município através de grupos com cada um pesquisando um tema.


       O projeto em andamento e sendo executado pelos agentes históricos, com as falas de seus familiares surgem as narrativas interessantes com abordagem efetivamente de quem construiu a história e suas memórias ressaltam as boas lembranças bem vivas. Esta narrativa que a oralidade traz para o presente são transcritas nas produções dos grupos. A identificação das memórias de seus familiares se confunde com suas histórias, o que chama bastante atenção dos aluno-pesquisadores e estimula seus interesses ainda mais pela pesquisa. Problematizando alguns conceitos da história regional, foi possível transpor para a história local numa perspectiva de desconstrução de uma narrativa empírica.


       Sempre procurando relacionar que a formação dos seres humanos faz partes de matrizes que iniciam com os laços culturais da família ou através de grupo social entre os ambientes que se encontram envolvidos. Traçar as narrativas orais em 25 dias do calendário letivo, neste caso, direto, inclusive nos finais de semanas, não é uma tarefa fácil, mas um desafio que os educadores encontram na construção de iniciação a pesquisa, principalmente, na educação básica, nos interiores do Estado, na dimensão de um país. O caso de Cachoeira do Piriá não fugiu à realidade.


       Os grupos temáticos sobre a mulher, a economia, cultura, religião, história e remédios caseiros avançaram nas pesquisas fazendo apenas as sistematizações e revisões das transcrições o que possibilitaram cada tema desse ser um capítulo do livro que organizamos  como resultado desses levantamentos dos aluno-pesquisadores e marcamos no final do módulo as apresentações de cada grupo com seu tema, o que foi excelente.


        Mesmo com pouco dias letivos, o olhar de um tempo, sempre mostram outros significados e rememorar o que essas pessoas têm de interessante, trazem outros significados, mesmo de tristeza, alegria ou saudades. A concretização dessa coletânea de textos, só foi possível com a participação dos informantes.