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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

UM LUGAR CHAMADO AÇAITEUA

 



*Carlos Prestes

 

 

 

AÇAITEUA

 

Uma rua vermelha... De canto

Uma escola na entrada do lugar

Uma igrejinha, na qual o padre,

Vindo não sei de onde,

Vez por outra celebra missa.

Uma pracinha mal iluminada

Onde costumam se encontrar

Adolescentes enamorados.

Outra escolinha lá... No fundo da praça,

Esquecida.

Um carro de boi

Com um lamento ruidoso...

Eis o retrato de Açaiteua.

 

(Carlos Prestes)

 

 

 

       Há casos e casos a se contar. Casos amorosos, trágicos, horripilantes, tenebrosos, sim, casos e casos. Principalmente quando você já trabalhou como professor do Sistema Modular. Quantas histórias devem estar guardadas na memória de cada um desses professores aposentados e ativos. Quanto de histórias que já se perderam no esquecimento do tempo; e quantas histórias que já foram enterradas na morte de um professor. Se têm-se, atualmente, mil e trezentos professores ativos no SOME, temos, pelo menos, mil e trezentas histórias de memórias para contar. Ninguém precisa ser escritor pra dar vida a uma história de memória, basta soltar a voz e contar para alguém que, com habilidade suficiente para escrevê-la, irá imortaliza-la no blog do Riba, nas redes sociais e, também, muito provavelmente, em livro impresso.

       Deixe-me apresentar-me. Meu nome é Emos. É um nome fictício, assim como os nomes dos outros personagens que aparecerão nessa história. Porém, apenas os nomes são fictícios, porque a história é totalmente verdadeira, assim como tantas outras histórias narradas por autores do SOME, como as histórias do professor Abir Arievilo.

       Traçando essas linhas em meu velho notebook, companheiro de todas as horas, que me aguça a imaginação, levando-me aos tempos em que fui um professor itinerante do SOME, lembrei-me – Como não poderia deixar de lembrar? – de casos e mais casos por onde passei, nas caminhadas pelo interior do estado do Pará. Ah! Naquele tempo, tudo era mais difícil para o professor, creio eu. No meu caso, muitas vezes, deixava Belém, onde eu morava, e rumava para algum município do interior, indo de barco ou de ônibus intermunicipal. Raras vezes, peguei avião. Isso acontecia apenas quando ia pra região da Transamazônica ou do sul do Pará. O avião saia de Belém direto pra Altamira. De lá, do aeroporto, íamos, eu e outros colegas professores, de táxi, direto para o ponto das kombis. Essas kombis nos levavam para o município onde iríamos trabalhar, desafiando a estrada escorregadia e lamacenta da Transamazônica. Que experiência incrível! A kombi atolava, deslizava de um lado pra outro, o motorista acelerava pra não atolar, mas atolava. Todos os homens saiam do carro pra ajudar a desatola-lo, apenas as mulheres e crianças ficavam no seu interior. Uma vez, como eu era inexperiente, fiquei atrás da kombi para empurra-la. Quando o motorista acelerou, aquele monte de lama amarela veio pra cima de mim. Tiramos a kombi do atoleiro, mas eu cheguei em Uruará por volta das seis da tarde – tínhamos saído às dez da manhã – com roupa e sapatos todos sujos daquela lama amarela e barrenta, que, no banho, tinha que fazer muito esforço pra tira-la do corpo, dos cabelos, da roupa e dos sapatos também.

       E a bagagem? Ah, a bagagem era outro problema! Eu, particularmente, levava duas: uma com roupas e outra com material de aula: livros, muitos livros, uma resma de papel, estêncil, álcool, canetas, lápis, fitas de vídeo, fitas kassete e, às vezes, até gravador e uma máquina de fotografia. Com os livros, eu reunia a turma em equipes e colocava-os pra fazerem pesquisa, uma vez que, quase sempre, não havia bibliotecas nos lugares pra onde íamos. Os livros também serviam para montar junto com os alunos e alunas, uma sala de leitura, e isso foi feito em alguns municípios carentes, como distrito de Fernandes Belo, também conhecido como Vila Quitéria, e  Açaiteua. Os livros também ajudavam muito na elaboração de seminários e defesa de trabalhos em equipe, fazendo com que alunos e alunas socializassem aquilo que estavam lendo e, com isso, era mais fácil assimilar o conhecimento.

       Naquele tempo, não havia, ainda, o programa do governo federal “Luz para todos” e os municípios do interior do Estado do Pará, quase que inteiramente, pelo menos todos por onde passei, eram iluminados por geradores, que funcionavam a partir das seis horas da tarde e eram desligados por volta das onze horas da noite. Imaginem o sufoco das donas de casa, que tinham que aproveitar esse tempo – de mais ou menos cinco horas de energia elétrica – pra colocar a geladeira pra funcionar e gelar água, fazer gelo, congelar comida pra não estragar, fazer picolé, chope (conhecido também como geladinho), além, é claro, não podemos esquecer, da televisão, da novela das seis da tarde, da novela das oito da noite. Alguns donos de bar tinham seu gerador próprio, outros que não tinham e dependiam dos geradores da cidade, enchiam seus freezers horizontais com gelo, cerveja e refrigerantes pra que a mercadoria não ficasse empatada e pudessem comercializar. Assim era a vida nos interiores do Pará até os fins dos anos noventa, e o professor do SOME conhece toda essa história, todos esses relatos, toda essa fartura de cultura.

       Nós vivemos um tempo que a nova geração, essa, que veio depois de nós, não conheceu, a não ser por livros e fotos, imagens, como se estivessem olhando pra dentro de um museu com peças de antiguidades, de um tempo que se foi. Nós somos as peças antigas, nós somos essas antiguidades, nós somos esse imenso museu arqueológico. Quanta riqueza há em nossas memórias! Memórias vivas, que se mexem! Memórias de tempos incríveis da máquina datilográfica, manual ou elétrica, onde, em dias de aula ou de provas, eu colocava a folha de papel chamex junto com o estêncil, e passava parte das manhãs escrevendo textos e elaborando provas. Aquele barulhinho característico das teclas da máquina quando eu escrevia (tec, tec, tec...), com dedos ágeis das duas mãos, ainda sibila na minha mente, e me enche de nostalgia. Naquele tempo, era comum fazer um curso de datilografia básica pra aprendermos a usar a máquina.

       Quando os textos estavam terminados, era hora de tirar cópias no mimeógrafo, aquele aparelho de cor amarela, que reproduzia cópias a baixo custo e que foi substituído, depois, pela impressora e pela máquina de Xerox, assim como a máquina datilográfica foi substituída pelo computador. E como era o procedimento para uso do Mimeógrafo? Colocava-se o álcool azulado num compartimento interno do aparelho, numa espécie de estufa, preparava-se o estêncil na posição para impressão, arrumava-se o papel sem pauta no mimeógrafo e, então, começava o processo de impressão, rodando a manivela existente ao lado do aparelho. Logo, as folhas de papel iam saindo copiadas. Era assim, naquele tempo. Nem carecia de energia pra máquina datilográfica funcionar, nem pro mimeógrafo. Era tudo muito simples e econômico. Mas tudo foi ficando pra traz, tudo ficou obsoleto: a máquina datilográfica, o estêncil, o mimeógrafo amarelo, o álcool azulado, os geradores, tudo virou peça de museu, guardados como relíquias de um passado do qual, nós, geração de oitenta e noventa, vivenciamos. Essa palavra – obsoleto – não deveria nunca ter sido inventada, pois torna inválido não apenas coisas materiais, mas o próprio ser humano.

       Como não lembrar, também, do telefone fixo, colocado na sala de casa, pra que todos pudessem ouvir quando tocasse? Como não lembrar dos orelhões, das fichas para fazer ligação que, depois, foram substituídas pelos cartões digitais? Como não lembrar das agências da Telepará espalhadas pelo território paraense, onde eu, pelo menos, uma vez por semana, me metia numa fila, esperando a minha vez de telefonar. Antes, tinha que dizer à telefonista, o destino da ligação:

       - Pra Belém!

       E isso tudo, tinha um custo a pagar. “Tempo bom não volta mais, saudade de outros tempos iguais!”, esse slogan era do Lilica, personagem humorístico do programa de televisão “Balança, mas não cai”. Que grande verdade trazem essas palavras. O tempo não volta, nem para, como dizia o Cazuza. Ele segue em frente, e nós tentamos acompanha-lo, mas até onde? Até quando? O tempo não é material nem concreto, nem psicológico. Isso tudo é invenção humana pra satisfazermos a nossa alma, uma tentativa de preenchermos um vazio inexplicável na nossa trajetória nesse mundo. E nós vamos ficando para traz, enquanto o tempo continua avançando e construindo novas histórias.

       Ah, mas essa não deixarei que passe! Ainda há tempo de conta-la, de registra-la na memória das pessoas, pelo menos por algum tempo. Eu estava em Açaiteua, interior de Viseu, com meu amigo professor, que vou chamar aqui de Tós, e a amiga professora, que vou chamar de Aivlis. Era uma sexta-feira, já começando o final de semana e aquela era a última aula da noite. O lugar era bem pequeno e pacato. Havia uma rua principal de chão batido e vermelho, uma escola municipal logo na entrada, uma fila de casas à beira da rua principal, que se prolongava por uns quinhentos metros ou um pouco mais. Quase no final da rua, havia uma pequena praça, e é claro que havia, também, uma igrejinha católica no centro – sempre há – bem em frente à praça, marcando território. Descendo a praça, do outro lado, havia uma escola estadual, com, aproximadamente, quatro salas de aula e uma secretaria, se não me falha a memória. A escola era bem pequena, e funcionava, pela manhã e à tarde, com o ensino básico fundamental, e, à noite, com o ensino médio do sistema modular. A maioria dos professores eram nossos alunos. A escola não parecia ter cores, e, se já tivesse tido algum dia, havia desaparecido com o passar dos anos.

       Do lado da escola, descendo pela rua da pracinha, dobrando a próxima rua que passava por detrás da igreja, estava a casa dos professores, uma casa de madeira, com um pequeno pátio, sala, dois quartos, um banheiro entre os quartos, uma cozinha e um pequeno quintal. A casa era de uma ex-aluna nossa que fora passar um empo em Belém.

       Naquela noite, depois das aulas, noite de sexta-feira, de tênue luar, um luar de quarto crescente, portanto, de uma noite não tão clara, mas também não tão escura, o professor Tós e a professora Aivlis já estavam de malas prontas pra embarcarem no ônibus da Boa Esperança, que passaria, naquela noite, lá por volta de uma hora da manhã. E eles sabiam que não podiam perder aquele ônibus, pois era o único por noite. Se perdessem o coletivo, só no outro dia, ou melhor, só na outra noite. E eles pretendiam aproveitar o final de semana com as suas famílias e voltar pra Açaiteua na segunda-feira pela manhã. A viagem durava em torno de sete horas. Então, deveriam chegar a Belém, por volta de oito da manhã.

       Foram para a beira da estrada, em frente à pracinha, onde ficaram esperando pelo seu transporte. Cerca de uma hora e vinte minutos da madrugada, lá vem o Boa Esperança buzinando alto pra que as pessoas que pretendiam viajar, não perdessem a viagem. Os professores embarcaram e eu voltei pra casa com a lanterna na mão, enquanto a buzina do Boa Esperança ia se distanciando dos meus ouvidos, trazendo calmaria e silencio ao lugar.

       A noite estava linda, muitas estrelas e o quarto crescente flutuando no céu. Esse foi mais um privilégio que tive na minha vida de professor itinerante: ver a noite interiorana com meus próprios olhos, uma noite selvagem e virgem, toda original em sua beleza única, indescritível, que fazia com que a noite parecesse mais enegrecida, uma escuridão que contrastava com o brilho das estrelas, milhares de estrelas a piscar no céu. Uma noite perfeita para casais de namorados, ao som da viola de algum cantador, entoando uma bela serenata.

       Durante a noite, por volta das três da madrugada, ouvi batidas na janela do meu quarto. No início, não liguei, mas, depois, as batidas foram ficando cada vez mais fortes. Eu quis acreditar que era apenas vento forte. Liguei o gravador que estava bem próximo da cabeceira da cama e aumentei um pouco o volume do som. Depois de alguns instantes, nova batida na janela.

       - Bam... Bam...

      Parecia que queriam arrancar as tábuas da janela. Pensei em mil coisas: visagem, ladrão. Mas ladrão não faria todo aquele barulho sabendo que tinha gente na casa. Não, não podia ser ladrão. Então pensei: se não era ladrão e nem vento, só podia ser.... Visagem?

       A casa estava toda na escuridão, pois, como eu disse anteriormente, lá, também, não havia energia elétrica, a não ser um gerador que era ligado das seis da tarde até às onze da noite, tempo suficiente para fechar a escola e professores e funcionários correrem para suas casas, uma vez que as aulas terminavam às dez e meia da noite. No meu quarto havia uma lamparina a querosene que iluminava parte do ambiente, mas a minha imaginação já estava a mil por hora, rodeada de elementos sobrenaturais. Peguei o revolver trinta e oito que levava comigo e o coloquei debaixo do travesseiro. Ao mesmo tempo, aumentei, mais uma vez, o volume da música que tocava no gravador. Lembro-me, claramente, uma das canções que ouvi antes de adormecer. Era a canção Fim de reinado, de Martinho da Vila, que diz assim:

Estás bonita

Nesse alto de colina

Tão feminina

Como a brisa da manhã

Por toda a noite

Dominaste o firmamento

E um punhado de estrelas

Ajudou-te a governar

Mas, eu lamento

Teu reinado já termina

E essa colina

Tá aí pra te abrigar

Vá pra outras terras

Minha formosa Jaci

Ou te escondes atrás da serra

Porque o Rei já vem aí...

       Fiquei nesse sobressalto até quando o dia começou a clarear. Então, não aguentando mais de tanto sono, adormeci. Sobrevivi àquela noite macabra.

       É necessário fazer um parêntese aqui sobre a história do revolver. Acontece que eu, antes de me formar em Letras e Artes, já fazia parte da polícia cientifica, ocupando o cargo de papiloscopista e, quando comecei a dar aulas pelo SOME, nos fins de semana, realizava operação documento (emissão de carteiras de identidade civil) nas localidades em que me encontrava, com carta de autorização do Instituto de Identificação que eu apresentava à autoridade local, quer seja à prefeitura ou à autoridade policial.

       Pois bem, dada essa informação, retornemos à história. No dia seguinte, sábado pela manhã, atualizei alguns textos, corrigi redações e fui ao igarapé que ficava a uns cento e cinquenta metros de casa. Lá, havia alguns banhistas aproveitando o dia ensolarado pra matar o calor.

       O resto do dia foi monótono e solitário, parecendo que corria lentamente com os passos de um bicho preguiça. Aos poucos, a tarde ia se recolhendo, e o rei Guaraci, se despedia de mim, lá, longe, por entre os montes, como se me dissesse:

       - Não se preocupe, não tenha medo, amanhã bem cedinho eu estarei aqui de novo!

       Ainda, por mais alguns momentos, era possível ver a paisagem panorâmica no horizonte. As poéticas imagens que o Guaraci deixava reluzir antes de se esconder por entre as árvores da serra do Piriá. Como não admira-las. Como não se vislumbrar com aquilo que parecia algo sobrenatural. Um tipo de poesia impossível de se descrever, embora eu tenha tentado. Peguei papel e caneta e pus-me a escrever ou descrever a poesia daquele lugar, que me invadia os recantos e os labirintos d’alma. Oh, sim! A poesia está solta, livre na natureza, no mundo real e palpável. Está diante de meus olhos, desnudada, simples e, ao mesmo tempo, humilde e glamorosa. Aquele era o momento, e, ela, parecia que me dizia:

       - Escreva, porque esse momento não tornará a se repetir! O tempo não volta e as coisas envelhecem, perdem o seu vigor e a sua originalidade. Escreva a vida em toda a sua plenitude.

       E eu escrevia e escrevia e escrevia... Finalmente, a noite começou o seu processo de ressurreição, e as imagens da Serra do Piriá, naquela localidade de Açaiteua, já se apagavam, não podiam mais ser vistas. Do batente da casa dos professores, sentado, eu apreciava o nascimento da Jaci, que clareava a noite com suas milhares de súditas, estrelas de todas as formas, com brilhos intensos, umas mais distantes, outras mais próximas, umas maiores, outras menores, e, no meio de todo aquele emaranhado de luzes, tive a impressão de poder vislumbrar as constelações do Cruzeiro do Sul, de Andrômeda, da Ursa Maior, da Ursa Menor, do Cão Maior, do Cão Menor, do Pégaso, da Fénix, de Órion, todas esplendidas. Ah! Eu também vi a famosa Estrela D’alva, a estrelinha dos enfeites de natal que costumávamos construir na escola com cartolina ou isopor e papel laminado, e a pendurávamos na parece da sala de casa. Ela estava ali, com sua cauda imensa, que se arrastava pelo firmamento afora. Uma estrela cadente correu, de repente, cruzando o espaço sideral, e eu fiz um pedido – todo mundo faz – que ficou guardado no íntimo da minh’alma, que se regozijava com a apreciação de toda aquela beleza interplanetária.

       Quantas pessoas não deviam estar fazendo o mesmo que eu, naquele momento, em algum lugar do planeta. Casais deitados na grama do quintal, ou no alto de um monte, amigos, familiares, com telescópio, admirando as belezas da criação divina. Sim, um cenário tão perfeito não pode ter surgido do acaso, pois foi feito de forma organizada, com leis que sustentam os planetas e os astros no vazio do espaço; leis que impedem que nós sejamos puxados para o espaço sideral; leis que fazem com que o planeta gire em volta de si mesmo com uma velocidade em torno de 1666 km/h, e em torno do sol com uma velocidade de 107 mil km/h; leis que retêm o sol fixo, em seu lugar, e que não permitem que ele se aproxime nem se distancie da Terra apenas alguns graus, porque isso, ou aqueceria a Terra demais, ou a esfriaria demais. De qualquer modo, toda vida no planeta morreria. Ah! São as leis físicas que proporcionam esse milagre? Sim, de certa maneira, mas quem criou as leis físicas? Elas não podem ter surgido do acaso. Há que ter um autor, uma mão poderosa, com certeza, que sustenta esse universo. O cristão chama-o pelo nome de Deus. Esse, que é o grande arquiteto do universo, o engenheiro insuperável, o primeiro dos poetas, sublime nas suas criações, que fazem com que os olhares dos poetas humanos, nas suas pinceladas, recriem a poesia que já existia, cujo material, que nos serve de inspiração, foi-nos dado com grande fartura.

       Finalmente, entrei na casa, fechei a porta, fui para a cozinha preparar alguma coisa para comer. Enquanto estava ali, na mesa, me alimentando, podia ouvir o canto das cigarras do lado de fora. Era o único som que chegava a mim. Fora isso, tudo era silêncio, como se tivesse sido decretada uma lei marcial, proibindo qualquer tipo de barulho ou pessoas transitando pelas ruas, após as oito da noite. Instantes depois, tomei um banho e fui ler um pouco. Lia e escrevia. Alguns de meus poemas e contos nasceram em momentos assim, em plena solidão, paz e silêncio. Só eu, a casa dos professores e a natureza. Aquele ambiente me empurrava, automaticamente, em direção ao papel e à caneta. A mente, fértil em imaginação, me inspirava a registrar todo o entorno daquele ambiente, em palavras poéticas, como se sondasse todo o interior de minh’alma, sem que nada pudesse escapar.

       Quem pode descrever o estado d’alma de um poeta? Quem se aventura a dizê-lo? Cada poeta tem o seu próprio caráter e personalidade, a sua história de vida, suas experiências, angústias, frustrações, alegrias, momentos de prazeres, vitórias e derrotas. Já dizia o Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente”. O poeta, às vezes, sem dar por si, carrega, em seus ombros, as dores e as alegrias do mundo. E por quê? Porque o poeta é um pensador que consegue enxergar no mundo físico o invisível; que consegue ouvir em meio a tanto barulho a canção muda. Um pensador também carrega em si uma desilusão, pois não consegue enxergar no mundo apenas as belas cores do arco-íris, mas enxerga, também, a fotografia em preto e branco, descolorida, sem a beleza da luz. Não como o ser comum enxerga, mas de tal forma que o preto e o branco lhe ferem a alma que há dentro da própria alma.

       A voz de Cecília Meireles também ecoou dizendo: “Eu canto porque o instante existe/E a minha vida está completa/Não sou alegre nem sou triste/Sou poeta”. Que contraste entre forças antagônicas (alegre/triste). Então, o poeta é algo entre a alegria e a tristeza, um pouco de cada ou nada de nada. O instante que existe – pra ela – pode trazer tristeza ou alegria, frustração ou contentamento. É assim com o ser humano. E é assim também com o poeta que, por um instante, pode ter a felicidade em suas mãos, mas no instante seguinte, os sofrimentos do mundo podem arrancar-lhe todo o sorriso do rosto. Então, vivemos de detalhes, de pequenas porções que a vida nos dá. E, no final das contas, temos que ter sabedoria para administra-las. Por conta disso, eu me sinto como um poeta, que, acima de tudo, nunca foi um super-herói invencível, como os das revistas de gibis, nunca deixei de ser humano, e que tenho meus momentos de alegrias e de frustrações, como qualquer outra pessoa, como qualquer um mortal.

       A energia do gerador foi-se embora, tudo ficou escuro, pois Já passavam das dez da noite. Nos finais de semana, quando não tinha aula, o gerador era desligado mais cedo. Peguei imediatamente o fósforo e acendi a lamparina com querosene; a luz voltou; não uma luz forte como a do gerador. Era uma luz tênue que clareava parte do ambiente do quarto, que continha uma cama de solteiro, uma mesinha e um guarda roupa com duas portas. Coloquei a lamparina sobre a mesinha, perto do gravador, e arrumei-me para deitar.

       Adormeci ao som de uma bela música romântica dos anos 90, A beleza da Rosa, de José Ribeiro. Poetas também amam, também ouvem músicas românticas, além da MPB raiz. Naquele tempo, música romântica era música romântica. E parece que as novas gerações de compositores dos anos dois mil e dez pra cá estão perdendo, gradativamente, a inspiração, com exceção, é claro, de alguns bons compositores que fizeram belas canções. Os poetas da música popular brasileira estão morrendo e parece que a qualidade das composições atuais não está sendo reinventada pra melhor. Será que isso é mania de saudosista? Será que é pura nostalgia de quem já passou dos cinquenta e não consegue ver muita beleza nas canções atuais? Música tem que conter poesia, poesia tem que conter musicalidade, como nas canções de gesta de Provença e do trovadorismo português.

       Eu fico falando e narrando coisas, e me pego viajando por idos da Idade Média, por castelos de Notinghan e pelas florestas de Robin Hood. Tenho que voltar ao presente. É preciso. Se não, como esta história se encerrará? Pois bem, voltemos ao presente. Num determinado momento, nem sei se estava acordado ou sonhando. Sei que ouvi batidas que vinham da porta uma, duas, três vezes, com insistência. As batidas pareciam distantes, mas ficavam cada vez mais fortes:

       - Toc-toc-toc... Toc-toc-toc...

    Despertei, de repente, num salto. Olhei o relógio. Eram Uma e meia da madrugada. Ouvi barulho de motor de carro lá fora e as batidas insistentes na porta. Saí do quarto e fui para a sala. Perguntei quem era. Nenhuma resposta. Perguntei novamente. Nenhuma resposta. Completo silêncio. Quando bateram novamente, eu prontamente respondi:

       - Se não dizer quem é eu vou atirar! – Eu estava com o trinta e oito na mão, pois, até então, eu não tinha a mínima ideia de quem poderia bater à minha porta àquela hora da madruga. Não me vinha ninguém à mente. O professor Tós e a professora Aivlis estavam em Belém e só iriam chegar em Açaiteua por volta das duas da tarde de segunda-feira. Na localidade, eu não conhecia ninguém que tivesse tamanha intimidade de bater na minha porta àquela hora da madrugada.

       De repente, ouvi alguém dizer lá fora, parecia a voz do condutor do veículo:

      - É melhor a senhora falar logo quem é. Ele disse que tá armado e pode atirar. É perigoso.

      Aí, então, ouvi uma voz conhecida:

- Sou eu, Emos! A Zete!

- Zete? O que estás fazendo aqui a essa hora da manhã?

- Abre a porta, depois te conto!

       Abri a porta e ela entrou. Era a minha esposa que tinha ido pra Açaiteua com meu filho, o pequeno Biel, a fim de me fazer uma surpresa. Passado o susto e as explicações, fomos, finalmente, dormir. Confesso que foi uma bela surpresa. Não me senti mais tão só, nem me preocupei mais com os fantasmas e visagens que rondavam aquela casa, querendo me assombrar.

       A minha esposa ainda me surpreenderia muitas outras vezes, com sua chegada inesperada em outras localidades do Marajó, da Pará-Maranhão, da Transamazônica. Essas são outras linhas e outros papéis em branco pra serem escritos, porque essa história não termina aqui. A história de cada um de nós nunca termina, enquanto houver chão pra pisar.


*O autor do texto é escritor, poeta e ex professor do Sistema de Organização Modular de Ensino - SOME(SEDUC/PA).

quinta-feira, 15 de abril de 2021

41 anos de Sistema de Organização Modular de Ensino - SOME

 


Instrumentos utilizados pelos professores do SOME nesses 41 anos

                       Ribamar Oliveira

Nestes 41 anos do Sistema de Organização Modular de Ensino – SOME política pública que atende os filhos e as filhas de trabalhadores rurais, quilombolas, indígenas, assentados, entre outras categorias, enfatizarei alguns instrumentos utilizados pelos professores do SOME durante essa trajetória de educação no Estado do Pará, como os tipos de mimeógrafos para imprimir suas atividades escolares, através do estêncil a álcool, estêncil a tinta, Xerox e contextualizando o momento político.

 

 



                                                                  Fonte: Google

 

Nas décadas de 80 e 90, o instrumento de fazer cópias para os alunos e alunas era o mimeografo a álcool, considerado uma das primeiras “impressoras” empregada nas atividades pedagógicas, principalmente em sala de aula. Importante ressaltar que, surgiu no ano de 1880, sendo aperfeiçoado e utilizado pela primeira vez em 1887 e posteriormente avançando para a eletricidade.  Como único instrumento de facilitar a reprodução de materiais didáticos nas práticas educativas dos professores e professoras, já que poucos municípios e localidades, assim como a Secretária Estadual de Educação – SEDUC, não ofereciam condições adequadas e recursos para nossas atividades docentes. Vale ressaltar que com o deslocamento do professor de sua cidade de origem, principalmente de Belém para a sua atuação profissional nas inúmeras localidades e seus locais de trabalho até 2003, recebia uma caixa de estêncil com 25 unidades e uma resma de folha A4, o que já ajudava o bastante, mas não o suficiente para um bom exercício produtivo.  Quando pegávamos turmas de alunos e alunas numerosas era mais difícil ainda pela insuficiência de material, eis à prática com esse recurso, mas para os professores da área de Ciências Humanas já ajudava para as atividades em grupos, entre outras atividades. Interessante, quando a equipe ia “rodar o material” em um instrumento de manivela {a manivela e a base de álcool em plenos éculo XXI, neste período, o que servia até de motivos para brincadeiras entre os professores da equipe, já que o cheiro exalava todo o ambiente e geralmente era na Secretaria da Escola.  

 

 

Apesar das dificuldades, rememorar esse período é trazer momentos preciosos e prazerosos, principalmente, pelo fato de sair de casa dos professores, outra era estar na escola conversando com os funcionários, onde adquiríamos uma relação profissional e de amizade. Tudo era novidade e motivo para interagir com os colegas que atuavam nas escola municipais, em especial, quando trabalhávamos pela primeira vez naquela localidade. Até 2003, o calendário a cumprir pelos profissionais era de 50 dias letivos direto em seus locais de trabalhos, diferente desta data, onde inicia o processo de descentralização do SOME com lotação dos professores em suas Unidades Regionais de Educação - Ures de origem. Atualmente, os professores trabalham, porém, nos finais de semanas estão com seus familiares. 

 

 

Resgatar a memória é tratar o Sistema de Organização Modular de Ensino – SOME que se originou a partir do dia 15 de abril de 1980, como data importante de implantação de um projeto experimental nos anos de 1980 e 1981 pela Fundação Educacional do Pará – FEP,  entidade mantenedora durante esse período. Com a posse do governador eleito democraticamente no ano de 1982, Jader Fonteneles Barbalho, do Partido Movimento Democrático Brasileiro – PMDB, o projeto passa a ser mantido pela Secretaria Estadual de Educação – SEDUC, com significativa expansão nos interiores do Estado do Pará.  Após seu governo, assume o mandato político máximo do Estado o médico Almir Gabriel. 

 

 

Durante esses governos, temos alguns aspectos a considerar em relação ao SOME, como: Seleção e contratação de professores para atuarem nos municípios e localidades que estavam carentes de mão de obra, logo vão suprir essas necessidades. Neste período tínhamos o planejamento pedagógico anual e formação continuada no Centro de Treinamento de Recursos Humanos da SEDUC, em Marituba, entre outras diversas instituições importantes para a educação, como a Universidade Federal do Pará – UFPA, Universidade Estadual do Pará – UEPA; além de entidades parceiras de debates e formação. Para os professores com carga horária trabalhada em 200 h, 240 h e 280 h/a recebiam conforme necessidade das cargas horárias dos municípios e localidades. Durante esses períodos, também temos a gratificação de 100%; além de alguns auxílios para os deslocamentos dos professores, como o transporte aéreo para alguns polos mais distantes, como Santarém, Marabá, Altamira, São Félix do Xingu, entre outros. Com isso, era um incentivo para os professores lotados, já que neste momento, muitos não queriam viajar e ainda tinha a alimentação e residência que ficava sob a responsabilidade das prefeituras. O que também estimulava a entrada era que a maioria dos municípios e localidades o funcionamento era apenas em um turno, enquanto no ensino regular, o professor ou professora que tinha 240 ou 280 as trabalhava nos três turnos ou no quarto, já que neste período tinha o turno chamado intermediário.

 

O convênio entre o Estado e Município proporcionou um avanço significativo para a educação nos interiores, como o apoio na moradia para a execução dos serviços domésticos e ambientes pedagógicos, incluindo o espaço físico da escola. Garimpando alguns documentos em meus arquivos que tratam de educação do campo e do SOME, pude chegar a conclusões interessantes desse convênio, que o apoio possibilitou a ampliação e democratização da educação básica na Amazônia paraense, em especial ao ensino médio.

 

 



                                                                           Fonte: Google

 

 

 

Destaco final da década de 1980 e início de 1990 a chegada do mimeografo com estêncil a tinta, onde recebíamos uma caixa contendo 15 unidades para utilizarmos e que poderíamos mandar rodar na sede da SEDUC ou no antigo Centro de Treinamento de Recurso Humanos da SEDUC, onde hoje fica a escola de formação de polícia (IESP). No caso do grupo de História, chegou, por exemplo, na década de1990 a contar com 33 professores, porém, só 12 eram bastante unidos na hora de aparecer nas reuniões, tomar as decisões, entre elas à produção de textos para trabalharmos nas três séries nas localidades. Após várias discussões e produções tirávamos uma comissão para mandar rodar o nosso material.

 

 

Esses dados fazem a gente repensar o contexto, que com a posse do governador Simão Jatene, do PSDB, em 2003, pode-se considerar como um dos momentos mais críticos e descaso pela educação que esta política pública passou e também quando foi possível aglutinar a categoria em defesa do SOME.

 

                   

                            


                                                                 Fonte: Google

 

Como base em pesquisas de alguns estudiosos, foi possível detectar que essa analise tinham alguns objetivos como as mudanças radicais na estrutura e funcionamento desse setor, sendo coordenada pela cunhada do governador, a Secretaria de educação Rosa Cunha, que veio mexer no “ninho do formigueiro”.  Segundo esses dados à desmobilização política dos professores era uma das metas para ser alcançada por esse governo, já que a categoria estava unificada através da Associação dos Professores do SOME- APSOME, o que por sinal era também desestruturar a entidade dos professores para enfraquecer a linha de frente das lutas e do movimento.  Sem duvida, neste período, com os “tucanos” no poder, outra meta seria esvaziar o quadro docente politicamente, através de várias portarias e decisões tomadas pelo gabinete da Secretaria e além de tentar desmontar principalmente as bases de apoio logístico.  Vale ressaltar as imposições tomadas de enfrentamento entre Estado e a categoria dos educadores do SOME, entre elas podemos citar algumas, como, a desestruturação da Coordenação Geral, indicando pessoas plenamente alinhadas e que rezava a cartilha de Rosa Cunha; a gratificação do SOME foi reduzida em aproximadamente 60%, possibilitando com essa atitude, o caráter de incentivo para os professores, o que fez com que uma parte significativa, principalmente as lideranças políticas do movimento saíssem dessa política pública, solicitando os remanejamentos para o ensino regular, no meu caso, sai  em julho de 2003 e retorno em janeiro de 2006. A partir daí, a gratificação foi decidida pela categoria A, B e C. de deslocamento perto, médio e longe de Belém. Data que considero histórica pela divisão cronológica do SOME em dois momentos: antes e depois de 2003. Com a descentralização a partir do segundo semestre do referido ano, a extinção dos convênios entre Estado e Prefeituras faz com que estas fiquem isentas de assumir compromissos e responsabilidades com os professores, ficando apenas na oralidade, o que permanece até o momento. Triste situação que ficamos a partir daí. As atividades de cunhos pedagógicos, como o planejamento anual e cortes de material didáticos para os educadores complicou ainda mais as praticas educativas, ficando o professor responsável por tudo, neste momento; assim como a extinção da formação continuada. Não podemos esquecer que durante os anos posteriores de 2003, foi gradativamente implantado o ensino regular no lugar do ensino modular principalmente nas sedes dos municípios; além de deslocar o ensino modular para as áreas rurais, sem as mínimas condições de funcionamento, como falta da merenda escolar, mínima condições do transporte escolar fazendo com que as principais reivindicações da categoria fossem deixadas de lado pelo poder central.

 

Diante de tal situação, fez com que a categoria se unificasse ainda mais, montando uma estrutura de enfrentamento e lutas pelas suas reivindicações, desafiando o governo tucano que tinha proibido manifestações na sede da SEDUC.  Através de várias lideranças mobilizaram os diversos segmentos vinculados ao projeto SOME e ocupam a sede com mais de três mil pessoas (3.000) incluindo professores, alunos, pais de alunos, lideranças políticas de movimentos sociais e populares dos municípios, religiosos entre outros. A resposta do Estado foi imediata, com o cerco da SEDUC pelo pelotão de choque, como se as pessoas que estavam na luta reivindicando qualidade de ensino fossem “bandidas”. Aconteceu a reunião entre os representantes das diversas categorias envolvidas pela melhoria da educação e o governo do Estado através do Secretario de governo Gerson Peres, porém, em menos de 24 horas pós-reunião, o Governo Jatene descumpriu todos os acordos da reunião, dando continuidade ao seu plano diabólico de desestruturação do modular.  

 

E o resultado de toda essa situação foi à saída compulsória de parte significativa de professores do SOME, por não concordarem com as imposições de Rosa Cunha, permanecendo grande parte de temporários sem as mínimas condições de trabalho, isso em vários municípios e localidades vai provocar a falta de professores para atendê-la a demanda de alunos e alunas, situação crítica neste momento, que vai fazer que tivessem grande índice de evasão e reprovação escolar, segundo dados levantados por vários estudiosos, além da baixa estima dos professores e alunos, carga horária e vagas disponíveis, descrédito dessa política pública em locais de funcionamento; além do fim do convênio que possibilitou a retirada das responsabilidades tanto por parte do município, como do Estado.  Foi um período tenebroso para os múltiplos sujeitos envolvidos na proposta de oferta de ensino pelo SOME para inúmeras localidades do Pará.  

 

No final dos anos 1990 e início da década de 2000 temos a chegada do avanço tecnológico como novas máquinas copiadoras, através da empresa Xerox. Essa possibilitou com que os professores, inclusive, até o momento ganhe bastante tempo em suas práticas pedagógicas, muito melhor do que ficar copiando no quadro negro a giz, sem duvida.

 

 

Contextualizando o momento, vale frisar a vitória de um governo com tendência democrática popular, com a governadora eleita Ana Júlia Carepa, do Partido dos Trabalhadores – PT. Durante seu governo, com os coordenadores Ester Silva e Ribamar Oliveira, foi possível reestruturar uma das maiores políticas públicas de inclusão social da Amazônia, com a participação efetiva de vários segmentos da sociedade e ampliar e garantir educação pública, digna e de qualidade nos rincões do Estado. Em seu governo, o SOME foi implantado em 199 localidades, fundamental para o desenvolvimento da sociedade; assim como: a reestruturação didática através circuitos e blocos de disciplinas, incluindo os projetos, seminários, encontros regionais, planejamento pedagógico, total incentivo à formação e organização estudantil dos alunos e alunas matriculados no SOME, a garantia da lotação dos professores no mínimo de 200 horas, com autorização de extrapolação dependendo da necessidade, chegando muitos professores até 280 horas, unificação da gratificação, criação do grupo de trabalho em 2009 (SINTEPP x SEDUC) que discutiu a proposta de regulamentação do SOME, culminando com a Lei 8.706, de 29 de abril de 2014, da Assembleia Legislativa, após muitas lutas, nomeação para efetivo de professores temporários, aprovados em concurso público, diálogos com movimentos sociais e populares para a melhoria do SOME.

 

 

Em 2017, temos mais uma luta pela autorização de matrículas dos alunos do primeiro ano, com as reivindicações de várias comunidades, culminando no ato maior em 23 de novembro, inclusive, com as presenças de vários municípios como Mojú, Abaetetuba, Conceição do Araguaia entre outros.

 

 

Os educadores do SOME tem tido lutas incansáveis ao longo desses 41 anos de trajetória de educação no Estado do Pará e o surgimento dessas máquinas tem contribuído com o avanço das sociedades e uma educação com instrumentos que facilitam o bom desempenho da aprendizagem dos alunos e alunas.

 

 

Com este texto, para os 41 anos do SOME, presto homenagem ao grande amigo, companheiro de lutas e sonhos Professor Cosmo Cabral e  amiga Professora Ester Silva que partiram para outras dimensões, mas deixaram seus legados para a categoria dos professores do Estado do Pará. Professor Cosmo Cabral, presente! Ester Silva, presente!

 

Referências Bibliográficas

 

Costa, Marina Sousa; Oliveira, José Ribamar Lira; Nascimento, Sérgio Bandeira do (Org.). Educação na Amazônia em Repertório de Saberes: O Sistema de Organização Modular de Ensino. Belém-PA: Editora Paka-Tatu, 2020.

Sousa, Arodinei Gaia. SOME: Educação no Campo da Amazônia Paraense. Cametá, PA: Editora AGS, 2020.

 

Fontes eletrônicas

 

Ribaprasempre.blogspot.com (Blog do Riba)


Apsome.com





SOME - 41 ANOS

O SOME

Por: Cristiany Fonseca 

Vem do sentido apagar 
Sair, desaparecer,
Mas esse de quem eu falo
Com isso não tem a ver.
Vem da palavra seguir, 
Ser forte pra prosseguir 
E não se deixar vencer.

Quem mora longe de estudo
E pensa não conseguir
Por ser grande a caminhada 
Pensa em ter que desistir 
Chegam eles com carinho 
Com calma e muito jeitinho 
Dando força pra seguir. 

São professores guerreiros 
Que estão a procurar 
No lugar que tem alunos 
Precisando estudar 
Chegam eles com atenção 
Com força e dedicação 
Para a todos educar.

Alguns vêm de muito longe
Tendo na sua jornada 
Chuva lama e muito sol
E poeira na estrada 
Para enfrentar sozinho 
As agruras do caminho 
Da profissão desejada. 

Arriscam-se muitas vezes 
Mesmo sem saber nadar
Atravessam grandes rios 
Para á escola chegar
vencem qualquer circunstância 
Não importando a distância 
E nem tampouco o lugar 

Deixa as suas famílias 
Além de tudo que têm 
Vão em busca de lugares 
Que não conhecem ninguém 
Mostrando que a atenção 
A vontade e a educação 
De mãos dadas vão além 

São muito extrovertidos
Inteligentes também 
Fazem sempre o possível 
Para nos ver ir além. 
Mostrando--nos que estudar 
É o caminho a trilhar 
Que nos leva para o bem.

O SOME cumpre deveres 
Tendo papel importante 
Catadores de alunos 
Que querem ir adiante 
Entre eles eu estou
Nessa trajetória eu vou
Que à jornada é constante. 

Assim, escrevi com calma 
Estes versos com cuidado  
Agradecendo o carinho 
Por ser nosso aliado.
Assim, eu quero falar:   
Por você nos educar, 
Professor, muito obrigado!  

Cristiany Fonseca é estudante do Ensino Médio Modular - EMM, da comunidade do Arauaí, Capitão Poço, 17 URE




𝑶𝒔 41 𝒂𝒏𝒐𝒔 𝒅𝒆 𝑺𝒊𝒔𝒕𝒆𝒎𝒂 𝑴𝒐𝒅𝒖𝒍𝒂𝒓 𝒅𝒆 𝑬𝒏𝒔𝒊𝒏𝒐

Por: Carlos Alberto Guedes de Moura

𝑷𝒆𝒄̧𝒐 𝒂 𝑫𝒆𝒖𝒔 𝒒𝒖𝒆 𝒎𝒆 𝒂𝒋𝒖𝒅𝒆, 𝒆𝒎 𝒎𝒆𝒊𝒐 𝒂 𝒈𝒓𝒂𝒏𝒅𝒆 𝒂𝒈𝒐𝒏𝒊𝒂,𝒏𝒐 𝒅𝒆𝒄𝒐𝒓𝒓𝒆𝒓 𝒅𝒆𝒔𝒔𝒆𝒔 41 𝒂𝒏𝒐𝒔, 𝒆𝒏𝒇𝒓𝒆𝒏𝒕𝒂𝒏𝒅𝒐 𝒕𝒓𝒊𝒔𝒕𝒆𝒛𝒂𝒔 𝒆 𝒂𝒍𝒆𝒈𝒓𝒊𝒂𝒔,𝒐 𝒂𝒏𝒊𝒗𝒆𝒓𝒔𝒂́𝒓𝒊𝒐 𝒅𝒐 𝑴𝒐𝒅𝒖𝒍𝒂𝒓, 𝒅𝒊𝒂𝒏𝒕𝒆 𝒅𝒂 𝒑𝒂𝒏𝒅𝒆𝒎𝒊𝒂.

𝑰𝒏𝒊𝒄𝒊𝒂𝒏𝒅𝒐 𝒄𝒐𝒎𝒐 𝒖𝒎 𝒑𝒆𝒒𝒖𝒆𝒏𝒐 𝒑𝒓𝒐𝒋𝒆𝒕𝒐, 𝒆𝒎 𝒖𝒎𝒂 𝒄𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒅𝒐 𝑷𝒂𝒓𝒂́, 𝒂 𝒐𝒓𝒅𝒆𝒎 𝒅𝒆 𝒊𝒏𝒊́𝒄𝒊𝒐 𝒆𝒓𝒂 𝒅𝒆 𝒆𝒅𝒖𝒄𝒂𝒓, 𝒎𝒂𝒊𝒔 𝒂 𝒇𝒓𝒆𝒏𝒕𝒆 𝒔𝒖𝒓𝒈𝒊𝒖 𝒐 𝑮𝒊𝒈𝒂𝒏𝒕𝒆,𝒅𝒐 𝑺𝒊𝒔𝒕𝒆𝒎𝒂 𝑴𝒐𝒅𝒖𝒍𝒂𝒓, 𝒒𝒖𝒆 𝒂𝒐 𝒍𝒐𝒏𝒈𝒐 𝒅𝒆𝒔𝒔𝒆𝒔 41 𝒂𝒏𝒐𝒔, 𝒏𝒂̃𝒐 𝒔𝒆 𝒄𝒂𝒏𝒔𝒂 𝒅𝒆 𝒆𝒅𝒖𝒄𝒂𝒓.

𝑬𝒅𝒖𝒄𝒂𝒓 𝒏𝒐 𝒓𝒊𝒃𝒆𝒊𝒓𝒊𝒏𝒉𝒐, 𝒄𝒐𝒎 𝒐 𝒑𝒓𝒐𝒋𝒆𝒕𝒐 𝒅𝒆 𝒆𝒏𝒔𝒊𝒏𝒂𝒓, 𝒏𝒂𝒔 𝒗𝒂́𝒓𝒊𝒂𝒔, 𝒏𝒐 𝒄𝒂𝒎𝒑𝒐 𝒆 𝒏𝒂𝒔 𝒂́𝒈𝒖𝒂𝒔, 𝒔𝒆𝒎 𝒋𝒂𝒎𝒂𝒊𝒔 𝒔𝒆 𝒄𝒂𝒏𝒔𝒂𝒓, 𝒂𝒕𝒆𝒏𝒅𝒆𝒏𝒅𝒐 𝒂 𝒄𝒍𝒊𝒆𝒏𝒕𝒆𝒍𝒂 𝒅𝒐 𝑬𝒔𝒕𝒂𝒅𝒐 𝒅𝒐 𝑷𝒂𝒓𝒂́.

𝑭𝒐𝒓𝒂𝒎 𝒎𝒖𝒊𝒕𝒂𝒔 𝒂𝒔 𝒕𝒆𝒏𝒕𝒂𝒕𝒊𝒗𝒂𝒔, 𝒅𝒐 𝒑𝒓𝒐𝒋𝒆𝒕𝒐 𝒂𝒄𝒂𝒃𝒂𝒓, 𝒎𝒂𝒔 𝒐 𝒒𝒖𝒆 𝒆́ 𝒇𝒆𝒊𝒕𝒐 𝒄𝒐𝒎 𝒂𝒎𝒐𝒓 𝒆 𝒄𝒂𝒓𝒊𝒏𝒉𝒐, 𝒋𝒂𝒎𝒂𝒊𝒔 𝒊𝒓𝒂́ 𝒑𝒂𝒓𝒂𝒓, 𝒔𝒆 𝒔𝒂𝒃𝒆 𝒒𝒖𝒆 𝒑𝒐𝒓 𝒂𝒒𝒖𝒊, 𝒇𝒐𝒓𝒂𝒎 𝒎𝒖𝒊𝒕𝒐𝒔 𝒂 𝒔𝒆 𝒇𝒐𝒓𝒎𝒂𝒓.

𝑫𝒆𝒅𝒊𝒄𝒂𝒓-𝒔𝒆 𝒂 𝒆𝒔𝒔𝒆 𝒑𝒓𝒐𝒋𝒆𝒕𝒐, 𝒇𝒓𝒆𝒏𝒕𝒆 𝒂̀ 𝒄𝒐𝒏𝒕𝒓𝒂𝒅𝒊𝒄̧𝒂̃𝒐, 𝒆́ 𝒑𝒓𝒆𝒄𝒊𝒔𝒐 𝒕𝒆𝒓 𝒂𝒎𝒐𝒓 𝒆 𝒔𝒂𝒃𝒆𝒓 𝒖𝒔𝒂𝒓 𝒂 𝒓𝒂𝒛𝒂̃𝒐, 𝒕𝒓𝒂𝒃𝒂𝒍𝒉𝒂𝒓 𝒔𝒆𝒎 𝒆𝒔𝒕𝒓𝒖𝒕𝒖𝒓𝒂𝒔 𝒆𝒎 𝒇𝒂𝒗𝒐𝒓 𝒅𝒆 𝒏𝒐𝒔𝒔𝒐 𝒊𝒓𝒎𝒂̃𝒐.

𝑺𝒊𝒎, 𝒑𝒐𝒓𝒒𝒖𝒆 𝒂𝒔 𝒄𝒐𝒏𝒅𝒊𝒄̧𝒐̃𝒆𝒔 𝒅𝒆 𝒏𝒐𝒔𝒔𝒂 𝒓𝒆𝒂𝒍𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆, 𝒔𝒂𝒊𝒏𝒅𝒐 𝒅𝒆 𝒏𝒐𝒔𝒔𝒐𝒔 𝒍𝒂𝒓𝒆𝒔, 𝒅𝒊𝒔𝒕𝒂𝒏𝒕𝒆𝒔 𝒅𝒂 𝒄𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆, 𝒕𝒓𝒂𝒃𝒂𝒍𝒉𝒂𝒓 𝒄𝒐𝒎 𝒐 𝒒𝒖𝒆 𝒕𝒆𝒎, 𝒄𝒐𝒎 𝒆𝒎𝒑𝒆𝒏𝒉𝒐 𝒆 𝒔𝒆𝒓𝒊𝒆𝒅𝒂𝒅𝒆.

𝑨 𝒗𝒆𝒛𝒆𝒔 𝒄𝒐𝒎 𝒕𝒐𝒅𝒂 𝒂 𝒄𝒓𝒊́𝒕𝒊𝒄𝒂, 𝒎𝒂𝒔 𝒔𝒆𝒓𝒗𝒊𝒏𝒅𝒐 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝒐𝒓𝒊𝒆𝒏𝒕𝒂𝒓, 𝒐 𝒂𝒄𝒐𝒍𝒉𝒊𝒎𝒆𝒏𝒕𝒐 𝒏𝒂 𝒄𝒐𝒎𝒖𝒏𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆, 𝒆 𝒐 𝒂𝒑𝒐𝒊𝒐 𝒂𝒐 𝒕𝒓𝒂𝒃𝒂𝒍𝒉𝒂𝒓, 𝒂𝒔𝒔𝒊𝒎 𝒐 𝑺𝒊𝒔𝒕𝒆𝒎𝒂 𝒕𝒐𝒎𝒂 𝒗𝒊𝒅𝒂 𝒆́ 𝒗𝒂𝒊 𝒄𝒓𝒆𝒔𝒄𝒆𝒏𝒅𝒐 𝒐 𝑴𝒐𝒅𝒖𝒍𝒂𝒓.

𝑶𝒔 𝒑𝒓𝒐𝒋𝒆𝒕𝒐𝒔 𝒑𝒆𝒅𝒂𝒈𝒐́𝒈𝒊𝒄𝒐𝒔, 𝒇𝒂𝒛𝒆𝒏𝒅𝒐 𝒇𝒊𝒓𝒎𝒂𝒓 𝒂 𝒂𝒕𝒆𝒏𝒄̧𝒂̃𝒐, 𝒂 𝒕𝒓𝒂𝒏𝒔𝒑𝒂𝒓𝒆̂𝒏𝒄𝒊𝒂 𝒆𝒅𝒖𝒄𝒂𝒕𝒊𝒗𝒂 𝒆𝒎 𝒑𝒓𝒐𝒍 𝒅𝒂 𝒆𝒅𝒖𝒄𝒂𝒄̧𝒂̃𝒐, 𝒇𝒂𝒛𝒆𝒏𝒅𝒐 𝒋𝒖𝒔 𝒂𝒐 𝒏𝒐𝒔𝒔𝒐 𝒄𝒉𝒂𝒎𝒂𝒅𝒐, 𝒄𝒐𝒎𝒐 𝒆𝒅𝒖𝒄𝒂𝒓 𝒂 𝑽𝒐𝒄𝒂𝒄̧𝒂̃𝒐.

𝑴𝒂𝒔 𝒂𝒈𝒐𝒓𝒂 𝒎𝒖𝒅𝒐𝒖 𝒅𝒆 𝒂𝒓𝒎𝒂́𝒓𝒊𝒐, 𝒐 𝒆𝒔𝒕𝒊𝒍𝒐 𝒅𝒆 𝒆𝒅𝒖𝒄𝒂𝒓, 𝒅𝒆𝒗𝒊𝒅𝒐 𝒂 𝒑𝒂𝒏𝒅𝒆𝒎𝒊𝒂, 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝒂𝒔 𝒗𝒊𝒅𝒂𝒔 𝒑𝒐𝒅𝒆𝒓 𝒔𝒂𝒍𝒗𝒂𝒓, 𝒐 𝒆𝒏𝒔𝒊𝒏𝒐 𝒆𝒔𝒕𝒂́ 𝒔𝒆𝒏𝒅𝒐 𝒐𝒏-𝒍𝒊𝒏𝒆, 𝒏𝒂𝒔 𝒂𝒖𝒍𝒂𝒔 𝒓𝒆𝒎𝒐𝒕𝒂𝒔 𝒔𝒆 𝒂𝒅𝒂𝒑𝒕𝒂𝒓.

𝑶𝒓𝒊𝒆𝒏𝒕𝒂𝒅𝒐𝒔 𝒑𝒆𝒍𝒂 𝑺𝑬𝑫𝑼𝑪 𝒄𝒐𝒎 𝒂𝒔 𝑼𝑹𝑬𝑺 𝒆 𝒐 𝒂𝒑𝒐𝒊𝒐 𝒅𝒆 𝒄𝒂𝒅𝒂 𝒈𝒆𝒔𝒕𝒐𝒓, 𝒐 𝒔𝒆𝒈𝒖𝒊𝒎𝒆𝒏𝒕𝒐 𝒏𝒐𝒔 𝒄𝒊𝒓𝒄𝒖𝒊𝒕𝒐𝒔 𝒆 𝒂 𝒅𝒆𝒅𝒊𝒄𝒂𝒄̧𝒂̃𝒐 𝒅𝒐 𝒑𝒓𝒐𝒇𝒆𝒔𝒔𝒐𝒓, 𝒅𝒆𝒔𝒆𝒏𝒗𝒐𝒍𝒗𝒆𝒏𝒅𝒐 𝒆𝒔𝒔𝒆 𝒕𝒓𝒂𝒃𝒂𝒍𝒉𝒐, 𝒄𝒐𝒎 𝒄𝒂𝒓𝒊𝒏𝒉𝒐, 𝒅𝒆𝒅𝒊𝒄𝒂𝒄̧𝒂̃𝒐 𝒆 𝑨𝒎𝒐𝒓.

𝑷𝒂𝒓𝒂𝒃𝒆́𝒏𝒔 𝒂𝒐 𝑺𝒊𝒔𝒕𝒆𝒎𝒂 𝑴𝒐𝒅𝒖𝒍𝒂𝒓, 𝒑𝒆𝒍𝒐𝒔 41 𝒂𝒏𝒐𝒔 𝒅𝒆 𝒅𝒆𝒅𝒊𝒄𝒂𝒄̧𝒂̃𝒐, 𝒂𝒐 𝒕𝒓𝒂𝒃𝒂𝒍𝒉𝒐 𝒏𝒐 𝒄𝒂𝒎𝒑𝒐, 𝒏𝒐𝒔 𝒓𝒊𝒐𝒔 𝒆 𝒏𝒂𝒔 𝒂́𝒈𝒖𝒂𝒔, 𝒆𝒎 𝒑𝒓𝒐𝒍 𝒅𝒂 𝒆𝒅𝒖𝒄𝒂𝒄̧𝒂̃𝒐 𝒅𝒐 𝒊𝒓𝒎𝒂̃𝒐, 𝒆𝒔𝒔𝒆 𝒑𝒓𝒐𝒋𝒆𝒕𝒐 𝒔𝒆𝒎𝒑𝒓𝒆 𝒅𝒆𝒖 𝒆 𝒅𝒂𝒓𝒂́ 𝒄𝒆𝒓𝒕𝒐, 𝒔𝒆 𝒐 𝒍𝒆𝒎𝒂 𝒇𝒐𝒓 𝒂 𝒏𝒐𝒔𝒔𝒂 𝒖𝒏𝒊𝒂̃𝒐.

𝑨 𝒖𝒏𝒊𝒂̃𝒐 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝒗𝒆𝒏𝒄𝒆𝒓𝒎𝒐𝒔, 𝒕𝒐𝒅𝒂 𝒆 𝒒𝒖𝒂𝒍𝒒𝒖𝒆𝒓 𝒔𝒊𝒕𝒖𝒂𝒄̧𝒂̃𝒐, 𝒎𝒆𝒔𝒎𝒐 𝒖𝒎 𝑺𝑬𝑰 𝒅𝒆𝒔𝒔𝒆𝒔 𝒅𝒂 𝒗𝒊𝒅𝒂, 𝒅𝒂 𝒓𝒆𝒂𝒍𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒔𝒆𝒎 𝒕𝒆𝒓 𝒖𝒎𝒂 𝒗𝒊𝒔𝒂̃𝒐, 𝒍𝒂́ 𝒐𝒏𝒅𝒆 𝒐 𝒑𝒓𝒐𝒇𝒆𝒔𝒔𝒐𝒓 𝒗𝒂𝒊, 𝒆𝒖 𝒏𝒂̃𝒐 𝒔𝒆𝒊 𝒔𝒆 𝒐 𝑺𝑬𝑰 𝒗𝒂̃𝒐 𝒏𝒂̃𝒐!!!

𝑮𝒖𝒊𝒂𝒅𝒐𝒔 𝒑𝒆𝒍𝒐 𝑫𝒊𝒗𝒊𝒏𝒐
𝑼𝒏𝒂𝒎𝒐-𝒏𝒐𝒔 𝒏𝒐 𝒆𝒅𝒖𝒄𝒂𝒓
𝑬 𝒕𝒆𝒏𝒉𝒂𝒎𝒐𝒔 𝒂 𝒈𝒓𝒂𝒏𝒅𝒆 𝒄𝒆𝒓𝒕𝒆𝒛𝒂
𝑫𝒆𝒖𝒔 𝒊𝒓𝒂́ 𝒏𝒐𝒔 𝒂𝒋𝒖𝒅𝒂𝒓
𝑬 𝒐 𝒑𝒓𝒐𝒋𝒆𝒕𝒐 𝒒𝒖𝒆 𝒊𝒓𝒂́ 𝒔𝒆𝒎𝒑𝒓𝒆 𝒅𝒂𝒓 𝒄𝒆𝒓𝒕𝒐
𝑺𝒊𝒔𝒕𝒆𝒎𝒂 𝒅𝒆 𝑬𝒏𝒔𝒊𝒏𝒐 𝑴𝒐𝒅𝒖𝒍𝒂𝒓

Carlos  de Moura é professor do SOME/AVEIRO/PA.





SOME - 41 ANOS

SOMEANDO

Por: João Furtado
 
Somos gente, inquieta que preserva o saber.
Transformando a paisagem humana.
Entre rios, estradas e igarapés serenos vamos.
Tecendo amores, paixões, filosofando a vida.
Ensinando a arte do bem aprender.
Nas manhãs, tardes ou noites, na alegria ou na tristeza.
Avantes e unidos seguimos, na esperança do novo alvorecer.
D'alma partida, deixamos os nossos a chorar.
E no silêncio choroso do coração, missão a cumprir.
Ontem, hoje e no amanhã tu vais florescer.
Raios do saber na primavera amazônica.
Galgando as intempéries da vida.
Amalgamando-se com as tristezas, alegrias e triunfos.
Nadando pelas águas, Campos e florestas.
Criando saberes, paixões em meio às tempestades.
Ziguezagueando no mar da fartura. 
Construindo sonhos em realidades diversas.

João da Silva Furtado é professor do SOME Cametá




SOME

Por: Carlos Alberto Prestes

Estrofe I
Ah! Quando penso naqueles lugares
Onde andaram meus calejados pés
Dos banhos nos rios e igarapés
Lembra-me a história de Palmares.

Estrofe II
Era um registro de liberdade
Que a história jamais apagou
Nem o homem branco a sujeitou
E em seus olhos só havia perplexidade.

Estrofe III
Essa tal e tão grata liberdade
Foi o que nos legou a educação
Que nos levantou pelos pés e mãos
Nos arrebatando além da cidade.

Estrofe IV
E lá se foi o valente professor
Em busca de um lugar desconhecido
Na sua bagagem livros e mais livros
Pelas paragens do interior.

Estrofe V
Ali, 1980, onde tudo começou
Era o governo Alacid Nunes
Que principiava uma atitude
Em razão da educação que herdou.

Estrofe VI
Assim nomeou Manoel Moutinho
Como superintendente geral
Da fundação educacional
Que foi organizando o seu caminho.

Estrofe VII
Diante de um quadro analisado
Em que alunos de várias regiões
Estavam sem estudar aos montões
E o primeiro grau já tinham tirado.

Estrofe VIII
Uma decisão tinha que tomar
Diante de tal situação
Que vivificasse a educação
E ninguém a pudesse revogar.

Estrofe IX
Aí veio a ideia singular
Pra habilitar aqueles estudantes
Pois nada seria mais como antes
Depois desse Sistema Modular.

Estrofe X
Compunha-se o sistema de três fases
Que eram as séries do segundo grau
Quatro módulos dados por igual
Com disciplinas e afinidades...

Estrofe XI
Causou boa impressão no mandatário
A habilitação no Magistério
Pro aluno completar o ensino médio
Que foi pra todos revolucionário...

Estrofe XII
Começou a seleção por Curuçá
Igarapé-Miri, Igarapé-Açu
Nova Timboteua do céu azul
Pois não se vai mais deixar de estudar...

Estrofe XIII
No primeiro encontro de secretários
De educação do Norte e Nordeste
Sediado em Belém, onde tudo acontece
O SOME foi algo extraordinário...

Estrofe XIV
Foi, sim, tamanha a repercussão
Que o nobre professor Manoel Moutinho
À Brasília foi chamado rapidinho
Pra palestrar aos que tinham o anelão...

Estrofe XV
Foram tantas as perguntas a mil
Dos figurões que controlam a instrução
Que se imaginava isso pra nação
Pois foi edição na Voz do Brasil...

Estrofe XVI
Logo vieram outros municípios
Mocajuba, São Francisco do Pará
Ponta de Pedras doutro lado do mar
Maracanã onde deixou resquícios...

Estrofe XVII
Assim o modular foi-se espalhando
Chegando em Irituia, Breves, Primavera
São Domingos do Capim, que quimera
Formando, graduando, educando...

Estrofe XVIII
Em oitenta e três embarca pra Muaná
Percorre a trilha de Salvaterra 
É recebido em Moju com festa
Em colares chega pra se aninhar...

Estrofe XIX
O SOME começa assim a voar
Voar pra outras terras além do Pará
Vai muito, muito além do Amapá
Pra países além do nosso rio-mar...

Estrofe XX
E, assim, com tanta história pra contar
Histórias de alunos e professores
Muitos viraram mestres e doutores
Outros ainda têm chão pra pisar...

Estrofe XXI
Olha que trato com a educação
Que recupera do povo a memória
Relatos vivos de uma dada história
Feita com projeto de intervenção...

Estrofe XXII
Assim se vão passando as disciplinas
Literatura, artes, filosofia
Química, física, geografia
Ah, tem tanta coisa que se ensina...

Estrofe XXIII
Pra quem quiser pesquisar isso tudo
Vai lá e acessa o blog do Riba
Que sabe mais até que um escriba
Tanto que já viraliza no mundo...

Estrofe XXIV
Tem também o Diálogos livres
Que fala do contexto social
De uma tal maneira imparcial
Que deixa o conteúdo sublime...

Estrofe XXV
Cabe ainda que se há de ressaltar
Os aperreios que o mestre passou
Isso tudo num lugar que ele amou
Coisas até difíceis de contar...

Estrofe XXVI
Como que lá, na Pará-Maranhão
Na antiga Cachoeira do Garimpo
Agora Piriá, com nome extinto
Pra estudar tinha que ter convicção...

Estrofe XXVII
Posto que em busca do tão caro ouro
Cavaram túneis por baixo da terra
Coisa que até parecia uma guerra
E nem assim ligavam pro decoro...

Estrofe XXVIII
Tanto cavaram que chegou na escola
Racha parede pra todo lado
Que até pra andar tinha que ter cuidado
Porque se não no buraco se atola...

Estrofe XXIX
Foi caso mui sério esse episódio
Posto que intervenção foi decretada
Alunos ficaram sem sala de aula
Ali a educação legou seu pódio...

Estrofe XXIX
Lá no Quilómetro Setenta e Quatro
Bem pras bandas da Pará-Maranhão
Se a alunada não ia de busão
Ia de caminhão mal agasalhado...

Estrofe XXXI
Naquele tempo era luz de motor
Um gerador que tinha o seu horário
De seis às onze o seu itinerário
Que trabalhava como um benfeitor...

Estrofe XXXII
Então, um dia deu-se um apagão
O motor roncou, roncou e parou
Toda aula na escola terminou
E pra consertar mais que mês passou...

Estrofe XXXIII
Também me faz lembrar Açaiteua
Num dia de aula, numa terça-feira
A noite tava que era uma beleza
Que pensei que tivesse em Timboteua...

Estrofe XXXIV
Seu Zé que dirigia o ônibus
Levava aluno pra escola e trazia
Não foi buscar naquele dia
Pois que a meses não recebia o ônus...

Estrofe XXXV
Coisa de prefeitura que não dá pra entender
E o prefeito insistia: estudar pra quê?
Pra trabalhar não precisa de lê!
Dizia que era prefeito sem saber escrever...

Estrofe XXXVI
Ora, cruzamos a transamazônica
Numa Kombi que ia bem pra lá
Pra aquelas bandas de Uruará
Numa aventura poética e lúdica...

Estrofe XXXVII
Lá também houve um problema peculiar
Os docentes queriam receber
O prefeito não queria atender
Porque não tinha dinheiro pra pagar...

Estrofe XXXVIII
Lá teve projeto de intervenção
Com participação de toda a comunidade
Dramatização da realidade
Pra ajudar a formar o cidadão...

Estrofe XXXIX
Medicilândia, quem não decantou?
Do folclore do encantado boto
Das peças... de danças do país todo
Do carimbó que todo mundo amou...

Estrofe XXXX
Ah! Tem tanta coisa, sim, pra dizer
De Abaeté, de Cametá, Afuá
De Santarém nem dá pra imaginar
Mas que em livro o escritor vai escrever...

Estrofe XXXXI
Assim como o tempo que está a passar
Surgem poetas, cantores e escritores
Artistas, sim, e também professores...
Desse memorável Sistema Modular.

Carlos Alberto Prestes
Joinville (SC), 12 e 13 de abril de 2021







SOME: 41 ANOS DE LUTA E RESISTÊNCIA  

                Eládio Carneiro


Neste 15 de abril de 2021, o Sistema de Organização Modular de Ensino - SOME completa 41 anos de existência e incorporação no sistema de ensino do Pará.

Apesar de ser a principal Política Pública fomentadora da Educação no estado do Pará, contribuindo na construção da cidadania e na formação intelectual e profissional da juventude rural, ribeirinha, quilombola e indígena paraense, o SOME continua sofrendo ataques e resistindo contra a falta de investimento e descaso do poder executivo, que tem privilegiado iniciativas privadas como o SEI - Sistema Educacional Interativo.

Durante seus primeiros 34 anos de funcionamento, o SOME caracterizou-se como um projeto educacional, sempre a margem das políticas públicas. Mas, em decorrência da mobilização e luta da comunidade escolar pela sua melhoria e por mais investimentos, em 29 de abril de 2014, através da Lei nº 7.806, o sistema se transforma em uma Política Pública.

Na visão do assessor jurídico Walmir Brelaz, do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Pará - SINTEPP, antes da Lei, o SOME era regido por instrumentos normativos frágeis, inclusive por meio de resoluções emitidas pelo Conselho Estadual de Educação - CEE e pela Secretaria de Estado de Educação - SEDUC.

Em seu artigo 1º, a Lei é clara ao estabelecer qual o seu objetivo: regulamentar o SOME, caracterizando-o como Política Pública Educacional do Estado, com normas gerais para sua adequada estrutura e funcionamento, no âmbito da Secretaria de Estado de Educação - SEDUC.

"...a importância dessa lei, para o bem ou para o mal, é que vincula todos aos seus dispositivos. Do governador ao professor. Isso em respeito ao princípio da legalidade, resumido na proposição suporta a lei que fizeste, significa estar a Administração Pública, em toda a sua atividade, presa aos fundamentos da lei, deles não podendo afastar, sob pena de invalidade do ato e responsabilidade de seu autor...", escreve o advogado em artigo intitulado "SOME, uma abordagem normativa".

Para Brelaz, a Lei do SOME, se destaca na sua finalidade, que é o de garantir aos estudantes acesso à educação básica e isonomia nos direitos, assegurando a ampliação do nível de escolaridade e a permanência dos alunos em suas comunidades, observando as peculiaridades e diversidades encontradas no campo, águas, florestas e aldeias do Estado do Pará (art. 2º), sendo direcionado à expansão das oportunidades educacionais em nível de ensino fundamental e médio para a população escolar do interior do Estado, onde não existir o ensino regular, de modo complementar ao ensino municipal (§ único do art. 2º).

Portanto hoje, em que o SOME completa 41 anos, com um cenário epidemiológico grave, por conta da Pandemia Covid-19, a comunidade escolar deve redobrar sua atenção e se mobilizar ainda mais, para combater os novos enfrentamentos que estão por vir, lembrando-se sempre, que sem mobilização social, a comunidade não alcançara qualidade na Educação.

(Via: Modular Notícias)






HINO AO SOME

Autor: Arodinei Gaia
 
Num berço do ano oitenta
Um colosso nasceu no Pará
Prolificando a esperança
Em terra cabana, nosso lugar
 
Em solo fértil, saberes singular
Na terra verde o alvo é a instrução
No peito nobre escondido a saudade
Sonho cabano alimenta meu coração
 
Indígena, quilombola
Ribeirinhos, povos tradicionais
Vilarejos e toda nossa gente
Novas lutas, novos ideais
 
Moduleiro! Moduleiro!
Filho ilustre amado desse chão
Na estrada, nas ilhas e nos rios
És um Gigante na educação
 
Uma grandiosa aventura
Perigos na estrada e na maré
O temor é vencido com união
Muita força, nosso amor e nossa fé
 
O campo exala perfume
É o cheiro da sonhada inclusão
Em rodízio o ensino a debutar                                        
Fulgurando toda escuridão         
Forasteiros com livros na mão
Nossa arma é a arte do pensar
Somos docentes, somos discentes
Somos o Sistema Modular
 
Moduleiro! Moduleiro!
Filho ilustre amado desse chão
Na estrada, nas ilhas e nos rios
És um Gigante na educação

Dinei Gaia é professor do SOME Cametá







O INESPERADO ACONTECE


Prof. Arogas - Livro Viajante do Giz - 2012


Quem, como autêntico moduleiro, nunca enfrentou toda sorte de problemas para desenvolver seu trabalho docente? É falta de alojamento, de mobiliário mínimo para a casa, falta de espaço para as aulas, prefeitura que não dá assistência ao projeto de ensino... Localidades que não possuem luz elétrica, carência de gêneros alimentícios, falta de água... Enfim, são tantos problemas que o professor precisa ter garra, vontade e jogo de cintura para tentar, pelo menos, amenizá-los. 


Alguns são fora do comum, chegam a ser hilários (depois de passados). Veja:


O lugar lembrava aquelas cidadezinhas de filme de faroeste: as casas de madeira enfileiradas de um lado e de outro da rua (quase única) principal; na frente destas sempre um poço, sinalizando que água encanada ainda era um sonho dos moradores. Na entrada da cidade, a existência de um córrego que eles chamavam de “rio”.


Era nesse ambiente que três moduleiros se encontravam para uma etapa de atividades docentes, para alunos do 2º grau. O alojamento era um antigo posto de saúde, de três cômodos: três saletas e um banheiro. 


Um motor fornecia luz elétrica para a localidade até às 21h (quando a prefeitura mandava o combustível). O abastecimento de água na casa dependia da energia elétrica, sem esta não havia como puxar água do poço para o reservatório. E o córrego ficava bem distante.]


Sem energia elétrica, sem água na casa dos professores. Aí o jeito era correr para o riozinho, tomar banho e voltar suado para casa. Mas, se resolvia o banho dos professores, faltava água para a limpeza do banheiro, para dar descarga no vaso sanitário, por exemplo. O banheiro sujo, no meio da casa, empestava todos os recintos minúsculos da residência. Era um caos total!


Entre os professores, um tinha o hábito de se demorar no banheiro. Primeiro fazia as necessidades no vaso – lendo -- só depois tomava o banho. Era assim, metódico no que fazia. Sempre era o último a usar o banheiro por causa do tempo que gastava ali.


Um dia o inesperado acontece. Os outros colegas já haviam passado pelo banheiro. Estavam arrumados para a escola, faziam um lanche na cozinha. Mas o professor, como sempre, preferiu ir por último para curtir a leitura, depois o banho. 


Ele demorava no vaso, enquanto isso os outros usavam a água na cozinha. Quando atentou para o som de água jorrando na torneira, lembrou-se de ligar o chuveiro. Foi a surpresa: não havia mais água. “Caramba, tô ferrado aqui!”, pensou. Estava numa enrascada. O vaso sujo e somente um punhado de água num balde, no canto do banheiro.


Não ousava pedir ajuda para os que estavam na sala, porque era caso de gozação para o resto do módulo. A solução era tentar resolver o problema com o pouco de água que havia. Seria tudo ou nada. Pensou primeiro em tomar o famoso banho “tcheco”, mas de relance atentou para a sujeira no vaso: “Não, não e não! Sair daqui mais ou menos limpo, mas não dar descarga no vaso, nem pensar! Seria o estopim para rirem de mim. Falarão de mim às caçambadas! Isso nunca!”


Começava aí o dilema do professor: não sabia se asseava a si ou ao vaso. Pensou longamente no isto ou aquilo. As horas passavam. Lá fora alguém chamou por seu nome. Por que tanta demora no banheiro!


Finalmente acabou por decidir a fazer o que muitos não fariam: jogou o punhado da água no vaso, para descarregar a sujeira. Pronto estava feito.


Saiu do banheiro de sorriso amarelo. Comentou com os colegas que não tinha tomado banho direito, iria esperar pela água. Os outros saíram da casa. Ele ficou de um lado para o outro, da sala para a cozinha, abrindo torneiras das pias. Coçava a cabeça, pensava nos rios abundantes da sua terra. “Que situação! Será que vou dormir sujo?”. O córrego estava distante. Era noite.


A luz da casa chegou. E em seguida a água. Correu para o chuveiro. Os primeiros pingos foram recebidos com festa. Comemorou ironicamente:


“Ei, você aí, andas farto de conforto? Queres sair da rotina, viver aventuras? Mude pra melhor! Seja professor do modular e desfrute de problemas inesquecíveis!”


(Trairão: 06–1996)


FONTE: Modular Notícias